Boletim Risco de Desmatamento: Avaliação de Resultados (Agosto de 2011 a Julho de 2012).

Boletim Risco de Desmatamento: Avaliação de Resultados (Agosto de 2011 a Julho de 2012).

Márcio Sales, Carlos Souza Jr.

Resumo

Neste boletim, comparamos os dados do Prodes, para o período de agosto de 2011 a julho de 2012, com os resultados apresentados no Boletim de Risco de Desmatamento publicado em Agosto de 2011, o qual apresentou previsões para o mesmo período. Essa comparação foi feita para avaliar o grau de exatidão da previsão reportada, e para identificar as necessidades de aprimoramento para previsões futuras. O boletim de avaliação é publicado alternadamente a cada boletim anual de risco de desmatamento, após a divulgação dos dados oficiais[1] do período estimado. Avaliamos a exatidão global e espacial do modelo e também a exatidão do modelo para estimar a área total desmatada em municípios, Áreas Protegidas e Assentamentos.

O modelo projetou uma área de desmatamento de 7.134 quilômetros quadrados, dos quais 2.721 quilômetros quadrados com chance de desmatamento acima de 0 entre agosto de 2011 a julho de 2012. A área de desmatamento mapeada[2] pelo PRODES foi de 4.656 quilômetros quadrados (ainda em caráter preliminar), que indica redução significativa em relação ao projetado pelo modelo. Neste período, observamos que cerca de 70% dos polígonos de desmatamento do Prodes ocorreram em até cinco quilômetros de distância de algum local de risco previsto pelo nosso modelo, e na média, 90% dos pixels desmatados aconteceram a uma distância de cerca de sete quilômetros de algum pixel de risco previsto. Houve correlação moderada entre a área total sob risco por Município e a área desmatada mapeada pelo Prodes (r=0.69). Para assentamentos, a correlação foi menor (r0,44). Para Áreas Protegidas, houve boa correlação entre as áreas desmatadas previstas e mapeadas em Unidades de Conservação Estaduais (r=0,85), mas a correlação foi menor para Terras Indígenas (0,55) e Unidades de Conservação Federais (r=0,20).

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[1] Os dados oficiais de desmatamento da Amazônia são gerados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) através do Projeto PRODES – Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélite.
[2] A taxa mapeada difere da taxa de desmatamento anual estimada do Prodes por utilizar os polígonos de desmatamento obtidos das imagens de satélites, enquanto que a taxa de desmatamento representa uma estimativa anualizada dessa área mapeada.

 

Taxa de desmatamento

O modelo de risco discrimina espacialmente locais com maior ou menor probabilidade de desmatamento a partir de uma taxa anual de desmatamento projetada para um dado período. O modelo estimou a área total desmatada no período de Agosto de 2011 a Julho de 2012 em 7.134 quilômetros quadrados, dos quais, 2.721 quilômetros quadrados foram apontados como áreas de risco significativo. Nesse período, a taxa de desmatamento preliminar mapeada pelo Prodes foi de 4.656 quilômetros quadrados, representando uma diferença de menos de 53% em relação à taxa assumida no período. O motivo da grande discrepância pode ser atribuído ao acentuado decréscimo da taxa de desmatamento entre 2011 e 2012 resultante do sucesso das ações governamentais no combate ao desmatamento.

 

Avaliação do modelo de risco de desmatamento

O modelo de risco de risco reporta a proporção esperada de desmatamento em cada pixel de um quilômetro quadrado cobrindo a região de florestas da Amazônia. Essa informação é combinada à estimativas de incerteza do risco de desmatamento estatisticamente significativos. Ou seja, os pixels que apresentaram proporção de desmmatamento estatisticamente maior que zero (i.e., percentagem da área de um quilômetro quadrado) são classificados como áreas de risco. Nesta seção avaliamos os resultados da alocação espacial das áreas de florestas com risco de desmatamento reportados pelo Imazon no Boletim de Risco de Desmatamento publicado em Agosto de 2010.

A avaliação do modelo de risco de desmatamento foi feita considerando a exatidão espacial e a exatidão global por Município, Áreas protegidas e Assentamentos. Definimos a exatidão espacial como a distância de locais de previsão para locais de desmatamento ocorrido, e a exatidão global como a capacidade do modelo de prever a área total desmatada em um determinado limite geográfico. A Figura 1 mostra a proporção de pixels desmatados em função da distância mínima para um pixel com risco de desmatamento significativo. Exatamente 10% dos pixels onde ocorreu desmatamento segundo o Prodes foram apontados como locais de risco pelo nosso modelo. Observamos também que 71% dos pixels com ocorrência de desmatamento localizaram-se a até cinco quilômetros de um pixel com risco de desmatamento significativo.

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Figura 1. Proporções de eventos de desmatamento mapeado pelo prodes por faixa de distância para locais de risco de desmatamento.

Cerca de 95% dos pixels desmatados no período estão no mínimo a uma distância média de 7 quilômetros de algum pixel de risco de desmatamento. Dessa forma, podemos dizer que o modelo apresentou uma exatidão espacial próxima de sete quilômetros. A Figura 2 mostra os locais de desmatamento de acordo com a distância para um local de desmatamento previsto pelo modelo. Os pontos em azul e roxo são pixels onde houve ocorrência de desmatamento próximas (a até dois quilômetros) e distantes (acima de sete quilômetros) de locais de desmatamento previsto pelo modelo, respectivamente.

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Figura 2. Comparação entre os resultados do modelo de risco de desmatamento e dados do Prodes para o período de agosto de 2011 a julho de 2012. Em média, o modelo previu desmatamentos a uma distância de sete quilômetros; com 71% dos desmatamentos à no máximo cinco quilômetros de algum local de risco.

 

Acurácia em municípios, assentamentos e Áreas Protegidas.

Esta seção avalia a capacidade do modelo de prever desmatamentos nas escalas de municípios, assentamentos e Áreas Protegidas. Avaliamos os resultados do modelo através do coeficiente de correlação entre os valores previstos pelo modelo e o desmatamento detectado pelo Prodes. O coeficiente de correlação pode variar entre -1 e 1 onde valores próximos a 1 indicam correlação positiva perfeita entre as estimativas de área desmatada e os valores mapeados pelo Prodes, valores próximos a zero indicam ausência completa de correspondência entre as duas grandezas, e valores negativos de correlação indicam correspondência inversa.

 

Acurácia por município

A Figura 3 mostra uma comparação entre a área de desmatamento estimada pelo modelo (eixo horizontal) e a área desmatada mapeada pelo Prodes (eixo vertical) em todos os Municípios da Amazônia. No gráfico, a reta mostra a tendência linear da relação entre as duas variáveis. A escala nos dois eixos foi log-transformada para facilitar a visualização dos pontos no gráfico. O gráfico indica boa relação entre estimativas e valores mapeados para Municípios com área desmatada maior que um quilômetro quadrado. Em geral, ouve correlação moderada entre o desmatamento detectado pelo Prodes nos municípios e a área desmatada prevista (r = 0,69). Os Municípios destacados em vermelho representam casos de Municípios onde o desmatamento mapeado diferiu da tendência da relação ajustada entre o desmatamento mapeado e o estimado pelo modelo, e esses Municípios estão listados na Tabela 1. Por exemplo, os Municípios de Cachoeira do Piriá e Brasil Novo são exemplos de Municípios onde o desmatamento foi significantemente abaixo do que o projetado pelo modelo, enquanto que os demais Municípios listados apresentaram desmatamento significativamente acima do projetado pelo modelo de acordo com o histórico. As maiores diferenças estão nos Municípios de Altamira (PA) Porto Velho (RO) e Lábrea (AM) que tiveram desmatamento bem maior que o projetado.

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Tabela 1. Municípios considerados discrepantes na relação entre desmatamento mapeado e o desmatamento projetado pelo modelo. Valores positivos indicam desmatamento maior que o esperado, enquanto que valores negativos indicam desmatamento menor que o projetado pelo modelo.

 

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Figura 3. Relação entre área desmatada prevista pelo modelo e a área desmatada mapeada pelo Prodes em Municípios, em 2011. Os 10 Municípios com maior desvio da relação entre a área desmatada prevista e a mapeada estão destacados.

 

Desmatamento em assentamentos de reforma agrária

A Figura 4 mostra a relação entre as áreas de desmatamento estimada pelo modelo e áreas mapeadas pelo Prodes, de forma análoga aos Municípios. Em assentamentos, os resultados obtidos pelo modelo foram inferiores aos obtidos pelos Municípios, (r = 0,44%). Vários assentamentos apresentaram uma área desmatada acima da relação de tendência entre os valores mapeados e estimados, em especial os Projetos de Assentamentos Juma, Monte e Tueré foram os assentamentos com maior discrepância em relação ao projetado pelo modelo.

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Figura 4. Relação entre área desmatada prevista pelo modelo e a área desmatada mapeada pelo Prodes em Assentamentos, em 2012.

 

Acurácia em áreas protegidas

Houve boa correlação moderada entre as áreas desmatadas previstas pelo modelo e a área mapeadas pelo Prodes em 2012 para Unidades de Conservação Estaduais, e baixa correlação para Terras Indígenas e Unidades de Conservação Federal. Os coeficientes de correlação entre as áreas desmatadas previstas pelo modelo e a área desmatada em Terras indígenas, Unidades de conservação Estaduais e Unidades de Conservação Federais foram de 0,548, 0,846 e 0,29, respectivamente (Figura 5). Isso sugere que o desmatamento histórico foi suficiente para capturar a dinâmica do desmatamento em Unidades de Conservação Estaduais, mas não foi suficiente para capturar a dinâmica em Terras Indígenas e Unidades de Conservação Estaduais. Parte desse fenômeno pode ser explicado pela taxa de desmatamento mais baixa nessas categorias de Área Protegida.

tabela 2

Tabela 2. Assentamentos considerados discrepantes na relação entre desmatamento mapeado e o desmatamento projetado pelo modelo. Valores positivos indicam desmatamento maior que o esperado, enquanto que valores negativos indicam desmatamento menor que o projetado pelo modelo.

 

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Figura 5. Relação entre a área desmatada prevista pelo modelo e a área desmatada mapeada pelo Prodes em (a) Terras Indígenas, (b) Unidades de Conservação Estaduais e (c) Unidades de Conservação Federais, em 2012.