O que fazer quando acaba a madeira

O que fazer quando acaba a madeira

Paragominas, no Pará, foi pioneira dos piores cenários amazônicos: destruição da floresta, violência rural, império da ilegalidade. Mas agora é modelo de desenvolvimento sustentável

São 38 anos explorando madeira na Amazônia. E seu Manoel se lembra do tempo em que não sabia o que estava fazendo. Começou moço, como operador de máquinas pesadas, no início dos anos 1970. Naquela época, o governo federal incentivou a ocupação da região e sua integração ao mercado doméstico. Manoel Barbosa, à frente de tratores do tamanho de prédios, entrava na mata e dava às árvores mais altas o destino que lhe convinha.

“Caíam para o lado que eu queria”, recorda. Rodou toda a região, sentindo sempre um gosto amargo indecifrável quando jogava ao chão mais um cedro, ipê ou mogno. Até que, no início dos anos 1990, foi trabalhar para uma organização não governamental sediada em Paragominas, no nordeste do Pará. Ali, se deu conta do que estava fazendo.

Agora seu Manoel está à beira de uma estrada de terra que ele mesmo ajudou a abrir em uma propriedade particular localizada em Paragominas, cidade que já foi considerada a síntese da destruição da floresta e hoje é modelo de desenvolvimento sustentável para os municípios da Amazônia. Rodeado pela mata, veste o uniforme da organização especializada em manejo florestal para a qual trabalha: calça verde, camisa laranja de mangas compridas, botas de cano longo e capacete. À sua direita, uma árvore de uns 15 metros de altura chama a atenção. Não pelo tamanho, mas pela grande marca no tronco, uma lasca arrancada do chão até uns 3 metros acima. “Eu que fiz isso”, assume. “Vim abrir caminho com o trator e arranquei uma ponta da raiz.” Foi um acidente. Extensa e profunda, a raiz partida reagiu feito elástico esticado, ricocheteou na própria árvore e arrancou a lasca do tronco. Não chegou a ameaçar fisicamente o motorista do trator, mas ele acusou o golpe: “Doeu em mim”.

A nova consciência na relação com os recursos naturais não chegou apenas a seu Manoel. Quem vai hoje a Paragominas depara com uma cidade limpa e bem cuidada – cenário incomum no interior da região Norte. Na zona central, carros novos circulam pelo asfalto impecável, os motoristas não precisam de semáforo para dar passagem aos pedestres nas faixas e os moradores podem relaxar no parque ambiental após a jornada de trabalho. Nas praças, o calor é amenizado pela sombra das árvores, adornadas de canteiros floridos. “As flores eram roubadas toda semana”, conta o atual prefeito, Adnan Demachki, “mas insistimos e as pessoas entenderam que aquilo já pertencia a elas.” A educação no trânsito foi mais objetiva. Desde o fim de 2007, multas são aplicadas a quem não para na faixa (São Paulo, a cidade mais rica do país, empregou a mesma regra em agosto de 2011).

Paragominas era uma cidade decadente em 1994, quando a ONG Tropical Forest Foundation criou uma subsidiária na Amazônia (mais tarde, o nome seria mudado para Instituto Floresta Tropical, abreviado para IFT). A área urbana inspirava abandono e visitantes eram vistos com desconfiança. Na zona rural, marcada pelo desmatamento ilegal, eram comuns assassinatos e ameaças, disputas por posse da terra e trabalho escravo – não por acaso, o lugar recebeu o apelido de “Paragobalas”. Durante o período de seca, de tão constantes os incêndios, ficava difícil até respirar. “Os olhos ardiam e a nuvem de fumaça criava problemas para os pilotos de avião”, recorda-se Demachki. Mas a escolha do IFT não foi um acaso: o centro de estudos, localizado em uma fazenda da madeireira Cikel, está ali porque, nos anos 1980, Paragominas havia sido o principal polo madeireiro do mundo tropical e concentrava o maior número de serrarias do planeta.

Muito dinheiro circulava. Baseada na exploração predatória de madeira, a atividade econômica promoveu rápido crescimento. “Esse foi o modelo em muitos municípios da região”, explica Beto Veríssimo, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). “O problema é que, com o tempo, a madeira acaba e a terra passa a ser utilizada para a agropecuária, que não mantém a mesma geração de renda e empregos.”

A floresta também pagou o preço. Quase 9 mil quilômetros quadrados de mata foram perdidos. Ainda assim, com 20 mil quilômetros quadrados de área (pouco menor que Sergipe), o município conta com um remanescente florestal considerável: 66% de seu território. Em um sobrevoo, o tapete formado pela copa das árvores engana. “Não é floresta intocada, mas uma mata da qual foi retirada boa parte das árvores com valor comercial”, explica Fábio Niedermeier, da organização The Nature Conservancy (TNC), contratada pelo Sindicato dos Produtores Rurais para elaborar um diagnóstico ambiental das propriedades.

Os excessos do passado culminaram na entrada de Paragominas, em janeiro de 2008, na lista negra de municípios que mais desmatam a Amazônia, emitida pelo Ministério do Meio Ambiente. As portas se fecharam para fazendeiros e empresários, que passaram a não ter acesso às linhas de crédito. Naquele mesmo ano, em fevereiro, Demachki convocou as lideranças locais para firmar um pacto pelo desmatamento zero. No mês seguinte, em março, uma ação conjunta da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança Pública e do Ibama (o órgão responsável pela execução da política nacional do meio ambiente na época) aconteceu na cidade. Chamada de Arco de Fogo, resultou em apreensão de toras, prisões e fechamento de serrarias ilegais.

Em novembro, outra operação, agora da Polícia Militar em parceria com o Ibama, intitulada de Rastro Negro, pôs fim a 120 fornos de carvão irregulares, além de apreender caminhões com toras sem origem. Inconformadas, aos gritos de “Eles se preocupam com árvore, mas não com gente!”, centenas de pessoas ligadas a essas atividades incendiaram o escritório local do Ibama. As cenas correram mundo, e o ministro do Meio Ambiente na época, Carlos Minc, convocou Demachki às pressas para uma reunião em Brasília.

Fonte: National Geographic Brasil