Estudo inédito mostra que frigoríficos ainda falham no controle do desmatamento no Cerrado

Segundo análise do Radar Verde, 96% dos frigoríficos avaliados no bioma têm grau muito baixo de compromisso contra o desmatamento.

21/05/26

Pela primeira vez, o Radar Verde avaliou o grau de compromisso e controle socioambiental dos frigoríficos que atuam no Cerrado. O levantamento analisou 225 empresas frigoríficas, responsáveis por 262 plantas no bioma, e identificou um cenário de baixa transparência e controle insuficiente da cadeia da carne bovina. Marfrig lidera o ranking com o melhor controle socioambiental comprovado, seguida por Masterboi, Minerva, JBS, Cooperfrigu, Carnes Boi Branco e Plena Alimentos.

Segundo os resultados, 216 empresas avaliadas (96%) apresentaram grau muito baixo de compromisso contra o desmatamento na nota geral, que considera fornecedores diretos e indiretos. As outras 9 empresas (4%) ficaram com grau baixo. Nenhuma empresa alcançou classificação intermediária, alta ou muito alta na classificação do Radar Verde.

O relatório também mostra que apenas 7 empresas, o equivalente a cerca de 3% do total avaliado, demonstraram algum nível de controle sobre fornecedores diretos. Já no caso dos fornecedores indiretos, as empresas avaliadas não apresentaram evidências suficientes de monitoramento efetivo dessa etapa da cadeia.

Os fornecedores indiretos são as fazendas por onde o gado passa antes de chegar ao fornecedor direto, por exemplo nas etapas de cria e recria, onde o animal passa cerca de 90% de sua vida. Sem controle dessas etapas anteriores, o frigorífico pode comprar gado de uma fazenda aparentemente regular, mas que recebeu animais vindos de áreas com desmatamento ou outras irregularidades.

Nenhuma das empresas avaliadas respondeu ao questionário enviado pelo Radar Verde para complementar informações sobre suas práticas de monitoramento e controle de fornecedores de gado. Segundo o relatório, a ausência de resposta não significa, por si só, que as empresas estejam comprando gado de áreas desmatadas, mas indica baixa transparência ativa. Dessa forma, a avaliação foi baseada em evidências públicas disponíveis, como políticas divulgadas, auditorias independentes, documentos oficiais e bases públicas.

Cerrado fica fora dos sistemas de controle da carne

O estudo aponta que os mecanismos de controle da cadeia da carne no Brasil foram historicamente desenvolvidos para responder ao desmatamento na Amazônia. Os Termos de Ajustamento de Conduta (TACs da Carne), protocolos de auditoria e sistemas de monitoramento de fornecedores foram estruturados ao longo de anos de pressão concentrada nesse bioma. No Cerrado, porém, nenhum acordo equivalente aos TACs da Carne está em vigor. O relatório destaca que o Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado, lançado em 2024, representa um avanço relevante, mas ainda não possui a mesma força de indução de comportamento dos TACs firmados na Amazônia, por não prever penalidades para descumprimento.

A análise também mostra uma limitação territorial importante dos sistemas atuais de rastreabilidade. O Cerrado abriga 973.705 fazendas com pastagem de pelo menos um hectare. Dessas, apenas 209.481, ou 22%, estão localizadas dentro da Amazônia Legal, onde os sistemas de monitoramento dos frigoríficos foram historicamente concentrados. As outras 764.224 fazendas com pasto, equivalentes a 78% do total, estão fora desse limite e, segundo o relatório, fora do alcance efetivo dos mecanismos de monitoramento vigentes. O resultado foi um conjunto de ferramentas razoavelmente desenvolvido para a Amazônia, mas que não foi desenhado para as especificidades do Cerrado.

Segundo a análise, isso significa que a grande maioria das propriedades que potencialmente fornecem gado no Cerrado opera sem qualquer verificação efetiva por parte dos frigoríficos. O problema se agrava no caso dos fornecedores indiretos, que permanecem submetidos a níveis muito inferiores de monitoramento e, na maior parte dos casos, sequer são acompanhados.

Cerrado tem dinâmica própria de desmatamento

O relatório também destaca diferenças importantes entre os dois biomas. Enquanto na Amazônia o desmatamento ainda está fortemente associado a terras públicas e áreas de conflito fundiário, no Cerrado ele ocorre majoritariamente em imóveis rurais privados.

Além disso, parte significativa da conversão de vegetação nativa no Cerrado ocorre dentro da legalidade. O Código Florestal exige a preservação de apenas 20% a 35% da vegetação nativa em propriedades rurais no bioma, enquanto na Amazônia a exigência pode chegar a 80%. Segundo o estudo, isso faz com que verificar apenas o desmatamento ilegal seja insuficiente para avaliar os compromissos socioambientais das empresas que atuam na região.

O Cerrado ocupa 23,3% do território nacional e já perdeu 93 milhões de hectares de vegetação nativa, quase metade de sua extensão original. Desse total, 51% foram convertidos em pastagem, 28% em áreas agrícolas e 17% em mosaico agropecuário. Em 2024, o bioma registrou pelo segundo ano consecutivo a maior área desmatada entre todos os biomas brasileiros, com 652.197 hectares desmatados, equivalentes a 52,5% de todo o desmatamento nacional naquele ano.

Sobre o Radar Verde

O Radar Verde, iniciativa do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e do Instituto O Mundo Que Queremos, é um indicador público e independente que avalia a transparência e o controle socioambiental de frigoríficos e supermercados na cadeia da carne bovina. A análise considera políticas empresariais de combate ao desmatamento e a busca de evidências públicas de implementação dessas políticas, incluindo o monitoramento de fazendas fornecedoras diretas e indiretas.

Desde 2022, o índice avalia o controle comprovado contra o desmatamento das empresas frigoríficas com plantas na Amazônia Legal e os 100 maiores grupos de varejo do Brasil. Esta é a primeira vez que o Radar Verde também publica o levantamento para o bioma Cerrado.

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Referência: https://imazon.org.br/relatorios/rresultados-radar-verde-cerrado-2026

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