Sociedade civil de Brasil e China se reúne em Pequim para cooperar em cadeias sustentáveis

24/03/26
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Workshop na capital chinesa busca alinhar estratégias para conservação de ecossistemas e segurança alimentar, fortalecendo a parceria entre as duas maiores economias do Sul Global

PEQUIM, CHINA – Em um momento de reconfiguração da geopolítica climática global, uma coalizão estratégica de organizações da sociedade civil do Brasil e da China realizou em Pequim o workshop “China-Brazil Exchange Workshop”. O encontro teve como objetivo transformar o diálogo bilateral em ações concretas para a conservação de ecossistemas, segurança alimentar e o fortalecimento de cadeias de suprimentos verdes.

O workshop é uma parceria do projeto Brazil-China Mission, que reúne cinco organizações brasileiras, com a think tank chinesa Greenovation Hub. O projeto Brazil-China Mission é uma iniciativa conjunta do IPAM, Imazon, Plataforma CIPÓ, ICV e do O Mundo Que Queremos. O projeto é apoiado pelo Instituto Clima e Sociedade. O objetivo é criar uma base sólida de cooperação técnica e política entre as sociedades civis dos dois países.

A cooperação Sul-Sul entre Brasil e China emerge como um pilar fundamental para manter viva a meta de 1,5°C do Acordo de Paris. Como as duas maiores economias do Sul Global, os países possuem mercados complementares e ecossistemas preciosos. O desafio é urgente e compartilhado. Nesse contexto, a cooperação entre Brasil e China é estratégica para acelerar a transição ecológica global. Ao aproximar pesquisadores e organizações da sociedade civil, este workshop fortalece a troca de conhecimentos e ajuda a fortalecer parcerias que apoiem uma relação comercial cada vez mais alinhada com a proteção dos ecossistemas naturais.

A urgência desse alinhamento ganha contornos estratégicos diante do novo ciclo de planejamento da China. O 15º Plano Quinquenal (2026-2030), atualmente em fase de formulação, coloca a segurança alimentar, a modernização da agricultura e o aprofundamento da cooperação Sul-Sul no centro das prioridades do desenvolvimento nacional. Ao mesmo tempo em que a China reforça seus mecanismos internos de resiliência, a aproximação com a sociedade civil brasileira — detentora de conhecimento crítico sobre a relação entre produtividade e conservação dos biomas — oferece um caminho concreto para operacionalizar os compromissos do plano no campo das relações internacionais. Assim, o workshop em Pequim não apenas responde a uma janela de oportunidade política, mas antecipa um modelo de cooperação que pode servir de referência para a implementação das diretrizes quinquenais: uma parceria estruturada, baseada em ciência e focada em resultados que conciliem a estabilidade das cadeias produtivas com a proteção dos bens comuns globais.

O workshop reuniu lideranças que destacam a necessidade de um novo modelo de comunicação, similar a uma “praça pública”, onde informações sobre pesquisas, políticas e padrões sustentáveis circulem de forma transparente entre os dois países.

Para Guillaume Tessier, especialista em uso da terra e agricultura sustentável do Instituto Clima e Sociedade (iCS), a união da delegação brasileira em solo chinês carrega um simbolismo prático: “A presença de uma delegação unificada da sociedade civil brasileira na China envia uma mensagem clara sobre a urgência de eliminar o desmatamento das cadeias de commodities. Ao reforçar esse compromisso de forma coletiva, também destacamos que proteger os ecossistemas naturais é essencial para garantir a segurança alimentar e a estabilidade das relações comerciais, especialmente com a China, principal destino das exportações agrícolas do Brasil.”

André Guimarães, diretor executivo do Ipam e enviado especial da sociedade civil para a COP30, reforça a complementaridade das nações: “Brasil e China são duas grandes nações do Sul Global com capacidades complementares: uma potência tecnológica e outra líder na produção de alimentos e commodities agrícolas. Aproximar nossa ciência e ampliar o diálogo entre as sociedades é essencial para enfrentar desafios globais como segurança alimentar, estabilidade climática e conservação ambiental.”

“A participação no workshop na China representa uma oportunidade de aprendizado e troca de experiências”, afirma Ritaumaria Pereira, diretora executiva do Imazon. “A parceria entre Brasil e China é especialmente importante para acelerar uma transição ecológica justa e eficaz. Juntos, podemos trocar conhecimentos sobre preservação ambiental, inovação tecnológica e produção sustentável”, diz Ritaumaria. “Além disso, essa cooperação abre caminho para fortalecer relações comerciais sustentáveis, agregando valor às cadeias produtivas e contribuindo para um desenvolvimento econômico que respeite o meio ambiente.”

A agenda do encontro foca em transformar intenções diplomáticas em resultados mensuráveis. “O Brasil e a China compartilham desafios de desenvolvimento em um mundo que enfrenta uma imensa crise climática. As duas nações têm grande potencial para explorar suas relações de amizade e para desenvolver uma produção sustentável de alimentos que garanta a segurança alimentar de ambas as populações e ajude a preservar a estabilidade climática global”, pontua Alexandre Mansur, diretor de projetos do Mundo Que Queremos.

Para Maiara Folly, cofundadora e diretora-executiva da Plataforma CIPÓ, o diálogo precisa de estrutura: “Este workshop mostra que, se queremos que a parceria entre Brasil e China impulsione uma transição ecológica com desenvolvimento, competitividade e soberania para ambos os países, precisamos transformar o diálogo bilateral em prol da sustentabilidade em um roteiro concreto de cooperação - com metas claras, troca de conhecimento e promoção de iniciativas e padrões sustentáveis que agreguem valor econômico sem reproduzir velhas assimetrias”.

Encerrando a visão estratégica, Alice Thuault, Diretora Executiva do ICV (Instituto Centro de Vida), destaca o potencial de escala: “A parceria entre Brasil e China tem potencial para contribuir com a construção de cadeias globais de suprimentos mais sustentáveis, conciliando proteção da biodiversidade, estabilidade climática e segurança alimentar em um modelo com potencial de alcance global.”

Essa parceria é importante para garantir as conquistas no caminho de cadeias produtivas sustentáveis. Em sua apresentação no workshop, Cristiane Mazzetti, coordenadora sênior de campanhas do Greenpeace Brasil, enfatizou a importância de preservar a Moratória da Soja do Brasil como uma garantia para ambos os países. “Sem a moratória, a soja pode voltar a ser um driver importante de desmatamento e emissões”, afirma. Estima-se que se a Moratória da Soja cair, cerca de 9 milhões de hectares de floresta podem ser legalmente derrubados na Amazônia em terras privadas. E mais 29 milhões de hectares de florestas públicas não designadas também estariam vulneráveis.

A carne bovina é outro desafio. Paula Bernasconi, lead de engajamento da América do Sul na Trase, mostrou dados revelando que 80% do risco de exposição ao desmatamento da China vem do Brasil. E que os produtos da pecuária sozinhos representam 61% desse risco. Há vários avanços na relação entre os dois países para garantir um suprimento de carne sem desmatamento para a China. Mas ainda há lacunas importantes a serem resolvidas. O Radar Verde, projeto conjunto do Imazon e do Mundo Que Queremos, avaliou as 31 plantas frigoríficas habilitadas a exportar para a China. Cerca de 61% delas já têm controle da última fazenda, mas nenhuma consegue ainda garantir desmatamento zero (ou mesmo legalidade) no resto da cadeia.

Para superar esses desafios, Paula enfatizou a capacidade de China e Brasil juntos catalisarem soluções Sul-Sul com impactos positivos para outros países do mesmo contexto. É o que vem sendo chamado de Efeito Brasília-Pequim. “Trabalhando juntos, Brasil e China têm a oportunidade de reformular o debate sobre agricultura sustentável e comércio. Fazem isso mudando o foco para que seja menos voltado à conformidade a padrões e mais à cooperação e ação coletiva”, afirmou Paula.

“Como parceiros comerciais importantes, a China e o Brasil têm o potencial para cooperar na agricultura, mineração, energia e infraestrutura para avançar rumo aos objetivos de clima e natureza de ambos os países”, afirmou Chen Yingjie, gerente programática de Clima e Energia do Greenovation Hub.

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