Como a Pecuária Pode Liderar a Ação Climática do Brasil

10/10/25
Título
Como a Pecuária Pode Liderar a Ação Climática do Brasil
Autores
Paulo Barreto, Ritaumaria Pereira, Arthur José da Silva Rocha, Amintas Brandão, Gabriel Salles Barreto
Meio de Publicação
Amazônia 2030
Data de Publicação
10/10/2025
Idioma
Português
Quantidade de Páginas
22

Resumo Executivo

A pecuária brasileira é o setor que, sozinho, mais pode contribuir positivamente para reduzir as emissões de gases de efeito estufa do Brasil e zerar o desmatamento da Amazônia. Isso acontece porque a criação de gado bovino hoje é responsável por uma fatia maior das emissões do Brasil do que todos os outros setores juntos, inclusive a agricultura. E também porque a pecuária brasileira hoje está associada aos principais vetores de desmatamento na Amazônia e no Cerrado. A pecuária é um setor de importância ímpar no Brasil por seu peso político, cultural e econômico. O consumo de carne é um desejo dos brasileiros e símbolo de ascensão social. O país investe com incentivos econômicos e força diplomática em seu potencial para crescer como grande exportador mundial de carne. Por tudo isso, a transição para uma pecuária de maior produtividade e sem desmatamento é vital para o futuro da Amazônia e da estabilidade climática do mundo.
 

Em 2023, a pecuária bovina ocupava 64% da área agropecuária do Brasil (Mapbiomas Brasil, 2023), mas contribuiu com apenas 17% do valor bruto da produção deste setor. Este desempenho limitado reflete o uso ineficiente da terra, já que 64% das pastagens (105 milhões de hectares) apresentavam vigor vegetativo baixo ou intermediário4. A pecuária bovina na Amazônia Legal ocupa 75 milhões de hectares (80% da área agropecuária da região), dos quais 54% estão degradados.
 

Apesar de tecnologias e crédito estarem disponíveis, persistem incentivos ao desmatamento, que por sua vez desencorajam os investimentos em produtividade — ou seja, fica mais barato e menos arriscado desmatar do que adotar tecnologias mais produtivas. Além disso, há outras barreiras à produtividade, como infraestrutura precária e escassez de assistência técnica. A ineficiência leva a baixos indicadores socioeconômicos e altas emissões. Aumentar a produtividade da pecuária sem expandir áreas pode atender à demanda de carne e reduzir emissões, custos e pressão sobre a floresta.

Esta Nota de Políticas Públicas propõe três recomendações principais: 

1. Concentrar políticas e investimentos da pecuária. Zonas num raio de até 60 km dos frigoríficos concentram 96% da capacidade de abate na Amazônia e já reúnem melhor infraestrutura, menos embargos e maior viabilidade para a pecuária (Barreto et al., 2024). Nossa análise indica que produtores respondem a esses incentivos: a chance de reforma de pastos é maior perto de plantas que exportam para a China, em regiões mais chuvosas e com maior nível educacional (Barreto et al., 2025). Priorizar políticas nessas áreas acelera ganhos ambientais e alinha-se às preferências já reveladas pelos fazendeiros. 

2. Reorientar o crédito rural para metas verificáveis de produtividade e clima, com assistência técnica obrigatória e monitoramento georreferenciado — dos R$8,5 bilhões contratados na Amazônia em 2023, apenas 30% permitiria reformar e estruturar 216 mil ha/ano de pastos, evitando a abertura equivalente à expansão média dos últimos dez anos (~810 mil ha/ano) e reduzindo em até 74% as emissões diretas por kg de carne. 

3. Eliminar o incentivo ao desmatamento especulativo destinando cerca de 50 milhões de ha de florestas públicas não destinadas (19 milhões federais; 31 milhões estaduais). A destinação envolveria a criação de áreas protegidas e poderia incluir instrumentos como troca de dívidas estaduais com a União (R$ 8,8 bilhões em jun/2025) e pagamentos por serviços ambientais. 

Essas medidas permitem aumentar a produção sem desmatar, cortar emissões e reduzir riscos financeiros, alinhando a pecuária à Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil.

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