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Resultados Radar Verde - Cerrado 2026
21/05/26
O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil, cobrindo 23,3% do território nacional. De seu território nascem as cabeceiras das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul, responsáveis pelo abastecimento de grandes cidades, pela irrigação das principais regiões agrícolas e pela geração de energia elétrica em boa parte do país (MMA, 2022). Apesar dessa importância, o bioma já perdeu 93 milhões de hectares de vegetação nativa, quase metade de sua extensão original, sendo 51% convertidos em pastagem, 28% em áreas agrícolas e 17% em mosaico agropecuário (MapBiomas, 2024). Em 2024, registrou pelo segundo ano consecutivo a maior área desmatada entre todos os biomas brasileiros, 652.197 hectares, equivalentes a 52,5% de todo o desmatamento nacional naquele ano (MapBiomas, 2025).
A pecuária bovina é o principal vetor dessa conversão. Parte da explicação está na própria legislação. O Código Florestal (Lei 12.651/2012) exige a preservação de apenas 20% a 35% da vegetação nativa em propriedades rurais no Cerrado, enquanto na Amazônia essa exigência chega a 80%. Isso significa que a maior parte do desmatamento no bioma ocorre dentro da lei, o que torna a fiscalização do cumprimento legal condição necessária, mas insuficiente, para contê-lo. Contribuem para essa vulnerabilidade a localização geográfica central do bioma, com fácil acesso por uma densa rede de estradas, e a baixa concentração de áreas protegidas, como terras indígenas e unidades de conservação, que na Amazônia têm funcionado como barreiras ao avanço do desmatamento.
Os frigoríficos ocupam posição estratégica nesse contexto. A cadeia produtiva da carne bovina é composta por três fases, cria, recria e engorda. Os fornecedores diretos são as fazendas que vendem o gado diretamente ao frigorífico; os fornecedores indiretos são todas as propriedades pelas quais o animal passou antes disso. Como elo central entre produtores rurais e mercados nacionais e internacionais, os frigoríficos têm capacidade real de influenciar o comportamento de seus fornecedores ao definir critérios de compra (GTFI, 2025).
A experiência da Amazônia comprova essa capacidade. Após a introdução dos Termos de Ajustamento de Conduta firmados com o Ministério Público Federal, conhecidos como TACs da Carne, a probabilidade de um frigorífico comprar de propriedades com desmatamento recente caiu pela metade, e as taxas de desmatamento nas fazendas fornecedoras reduziram significativamente (Gibbs et al., 2016). Pesquisa posterior confirmou que, após os TACs, os frigoríficos continuaram crescendo sem que o desmatamento acompanhasse essa expansão (Da Mata, Dotta, & Severnini, 2026). A lição é clara. Compromissos verificáveis e juridicamente exigíveis podem dissociar o crescimento da pecuária da perda de vegetação nativa.
Mesmo na Amazônia, porém, esse avanço tem limites. O monitoramento se restringe aos fornecedores diretos, enquanto os fornecedores indiretos, por onde o boi passa a maior parte de sua vida, em média dois a três anos, permanecem fora do alcance dos sistemas de rastreabilidade. Essa lacuna abre espaço para a chamada lavagem de gado, em que animais criados em áreas desmatadas são transferidos para propriedades regulares pouco antes da venda ao frigorífico (Gibbs et al., 2016). Em fevereiro de 2026, o MPF anunciou novas diretrizes para o controle gradual de fornecedores indiretos na Amazônia Legal, com implementação prevista até 2028 (MPF, 2026; Boi na Linha, 2026), mas o mecanismo ainda está em fase inicial.
No Cerrado, nenhum acordo equivalente aos TACs da Carne está em vigor. O Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado, lançado em 2024, representa um avanço relevante ao estabelecer critérios técnicos padronizados para o monitoramento de fornecedores diretos no bioma (Proforest & Imaflora, 2024). O Protocolo tem grande potencial, mas, por ser voluntário e não prever penalidades para o descumprimento, ainda não tem a mesma força de indução de comportamento que os TACs da Carne demonstraram ter na Amazônia. O resultado é que o controle sobre fornecedores diretos e indiretos permanece mínimo ou inexistente para a grande maioria dos frigoríficos que atuam no bioma.
É nesse contexto que o Radar Verde Cerrado 2026 se insere. A iniciativa avalia se os frigoríficos que atuam no bioma possuem políticas públicas, verificáveis e efetivamente implementadas para evitar que a carne comercializada esteja associada à perda de vegetação nativa, considerando tanto fornecedores diretos quanto indiretos. Ao tornar essas informações públicas e comparáveis, o Radar Verde oferece uma base concreta para que compradores, investidores, financiadores e formuladores de políticas avaliem o desempenho das empresas e cobrem avanços verificáveis onde o marco legal ainda não chegou.
Resumo dos principais resultados
O Radar Verde Cerrado 2026 avaliou 225 empresas frigoríficas, responsáveis por 262 plantas no bioma Cerrado. O resultado mostra um quadro de baixa transparência e controle insuficiente da cadeia da carne bovina no bioma.
- Apenas 7 empresas, cerca de 3% do total avaliado, demonstraram algum nível de controle sobre fornecedores diretos.
- Quando a avaliação considera a cadeia completa, incluindo fornecedores diretos e indiretos, 96% das empresas foram classificadas com grau de compromisso muito baixo e 4% com grau baixo.
- Nenhuma empresa apresentou grau intermediário, alto ou muito alto de compromisso contra o desmatamento.
- Nenhuma das empresas avaliadas respondeu ao questionário enviado para complementar informações sobre suas práticas de monitoramento e controle de fornecedores de gado.
O principal ponto crítico é o controle de fornecedores indiretos. Fornecedor direto é a fazenda que vende gado diretamente ao frigorífico. Fornecedor indireto é a fazenda por onde o animal passou antes de chegar ao fornecedor direto, por exemplo nas etapas de cria e recria. Sem controle dessas etapas anteriores, o frigorífico pode comprar gado de uma fazenda aparentemente regular, mas que recebeu animais vindos de áreas com desmatamento ou outras irregularidades.
Esse desafio já é reconhecido na agenda pública da pecuária. Em 2026, o Ministério Público Federal anunciou novas diretrizes para o controle gradual de fornecedores indiretos na cadeia da pecuária na Amazônia. O MPF definiu fornecedores indiretos como aqueles que abastecem fazendas que comercializam diretamente com os frigoríficos e informou que as diretrizes passariam a integrar o Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado (Ministério Público Federal [MPF], 2026). O Boi na Linha também destacou que a regra estabelece critérios técnicos para bloqueio e desbloqueio de fornecedores, define fornecedor indireto de primeiro nível e prevê implementação gradual até 2028 (Boi na Linha, 2026).
A ausência de resposta das empresas ao questionário do Radar Verde não significa, por si só, que elas estejam comprando gado de áreas desmatadas. Mas indica baixa transparência ativa. Quando uma empresa não responde, a avaliação fica limitada às evidências públicas disponíveis, como políticas divulgadas, resultados de auditorias independentes, documentos oficiais e informações em bases públicas.
As maiores pontuações
A tabela 5 a seguir apresenta o desempenho das principais empresas frigoríficas em relação ao Grau de Compromisso Contra o Desmatamento no Cerrado, considerando fornecedores diretos, indiretos e a nota geral. Observa-se que, embora as empresas apresentem bom desempenho no controle de fornecedores diretos, há uma grande deficiência no monitoramento de fornecedores indiretos, com pontuações muito baixas. Como resultado, as notas gerais permanecem reduzidas, o que evidencia que os avanços ainda são limitados e que o controle dos fornecedores indiretos é o principal desafio para demonstrar a efetividade das políticas socioambientais na cadeia da pecuária.
Tabela 5. As empresas com melhores pontuações no Cerrado quanto ao Grau de Compromisso Contra o Desmatamento: resultados sobre fornecedores diretos, indiretos e nota geral.
Resultados completos
A análise utilizou informações públicas e questionários enviados às empresas. Como nenhuma empresa respondeu ao questionário, os resultados refletem apenas evidências públicas disponíveis. Esse procedimento é coerente com a metodologia do Radar Verde, que combina respostas voluntárias das empresas com informações disponíveis em sites, documentos públicos e auditorias independentes (Radar Verde, 2025b, 2026b).
Os resultados são apresentados com o nome da empresa, sua pontuação e sua classificação por cores no Grau de Compromisso Contra o Desmatamento, além do status de resposta ao questionário. A classificação por cores ajuda o leitor a interpretar rapidamente o desempenho demonstrado: vermelho indica grau muito baixo de compromisso; laranja indica grau baixo; demais faixas indicariam níveis intermediários, altos ou muito altos, quando existentes.
A avaliação considera dois componentes principais:
- Política contra o desmatamento: verifica se a empresa possui regras públicas, claras e abrangentes para evitar a compra de gado associado ao desmatamento.
- Implementação da política: verifica se há evidências de que essas regras são aplicadas na prática, com base em dados públicos e resultados de auditorias independentes.
A nota final considera o controle sobre fornecedores diretos e indiretos, pois o risco de desmatamento pode estar em qualquer etapa da vida do animal. Uma empresa que monitora apenas a fazenda que vende diretamente ao frigorífico pode deixar de identificar irregularidades ocorridas nas fazendas anteriores. Por isso, a avaliação do Radar Verde diferencia o controle do fornecedor direto e o controle do fornecedor indireto.
Observa-se uma ampla concentração de unidades na região Centro-Oeste e Sudeste, especialmente nos estados de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo, que concentram grande parte da produção pecuária nacional. A classificação por cores indica que a maioria dos estabelecimentos apresenta níveis muito baixos de compromisso (vermelho), o que evidencia fragilidades no controle socioambiental ao longo da cadeia produtiva. Por outro lado, um número reduzido de frigoríficos indica níveis mais elevados de compromisso (verde), sugerindo a adoção de práticas mais robustas de monitoramento de fornecedores diretos por parte destas empresas.
De modo geral, o mapa evidencia a predominância de níveis muito baixos de efetividade nas políticas de controle do desmatamento, reforçando a necessidade de avanços na governança da cadeia da carne bovina no Cerrado.
Mapa 1. Desempenho dos frigoríficos avaliados no bioma Cerrado no Grau de Compromisso Contra o Desmatamento quanto aos fornecedores diretos. Fonte: Radar Verde Cerrado 2026, com dados dos Sistemas de inspeção federal (SIFs) e estaduais (SIEs) 2025.
O mapa 2 apresenta a distribuição espacial dos frigoríficos avaliados no bioma Cerrado e seus respectivos Graus de Compromisso Contra o Desmatamento em relação aos fornecedores indiretos.
Assim como observado no mapa anterior, há uma forte concentração de unidades nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, com destaque para os estados de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo. No entanto, diferentemente do desempenho observado para fornecedores diretos, verifica-se que a totalidade dos estabelecimentos avaliados apresenta níveis muito baixos de compromisso (vermelho) no monitoramento de fornecedores indiretos.
Esse resultado evidencia uma vulnerabilidade na rastreabilidade da cadeia produtiva, uma vez que os fornecedores indiretos representam uma etapa importante na origem do gado, os animais permanecem em períodos de cria e recria e estão frequentemente associados a maiores riscos de desmatamento.
De modo geral, o mapa reforça que a ausência de mecanismos eficazes de controle sobre fornecedores indiretos constitui um dos principais desafios à efetividade das políticas socioambientais na cadeia da pecuária no Cerrado.
Mapa 2. Desempenho dos frigoríficos avaliados no bioma Cerrado no Grau de Compromisso Contra o Desmatamento quanto aos fornecedores indiretos. Fonte: Radar Verde Cerrado 2026, com dados dos Sistemas de inspeção federal (SIFs) e estaduais (SIEs) 2025.
Já o mapa 3, a seguir, apresenta a distribuição espacial dos frigoríficos avaliados no bioma e o respectivo Grau de Compromisso Contra o Desmatamento, considerando a nota geral, que reflete o desempenho médio das empresas no controle de fornecedores diretos e indiretos.
A classificação indica que a maioria dos frigoríficos apresenta níveis muito baixos de compromisso (vermelho), mesmo quando se considera a média entre os dois tipos de fornecedores, enquanto uma parcela menor apresenta desempenho baixo (laranja). Esse resultado demonstra que os avanços observados no monitoramento de fornecedores diretos não são suficientes para elevar o desempenho geral das empresas, que são significativamente impactadas pela ausência de controle sobre fornecedores indiretos.
De forma geral, o mapa reforça a predominância de baixos níveis de efetividade nas políticas socioambientais, destacando a necessidade de aprimoramento da rastreabilidade completa e de maior monitoramento e controle da cadeia produtiva da pecuária no Cerrado.
Mapa 3. Desempenho dos frigoríficos avaliados no bioma Cerrado no Grau de Compromisso Contra o Desmatamento quanto à nota geral (diretos e indiretos). Fonte: Radar Verde Cerrado 2026, com dados dos Sistemas de Inspeção Federal (SIFs) e Estaduais (SIEs) de 2025.
Empresas com auditoria independente
Auditorias independentes são importantes porque permitem verificar, por meio de uma terceira parte, se os critérios socioambientais declarados pelas empresas estão sendo aplicados nas compras de gado. No caso da cadeia da carne, essas auditorias podem avaliar se o frigorífico bloqueou fornecedores associados a desmatamento, embargos ambientais, sobreposição com áreas protegidas, trabalho escravo ou outras irregularidades. O MPF informa que os TACs da Carne Legal na Amazônia incluem compromissos para verificar se fazendas fornecedoras estão livres de desmatamento ilegal, sobreposição com terras indígenas e unidades de conservação, embargos ambientais e registros na lista suja do trabalho escravo (MPF, 2026).
A existência de auditoria, porém, não resolve automaticamente todos os problemas de rastreabilidade. A utilidade da auditoria depende da abrangência territorial, dos critérios avaliados, da qualidade dos dados disponíveis e da inclusão ou não de fornecedores indiretos. Por isso, o Radar Verde considera auditorias independentes como evidência relevante, mas também verifica se elas cobrem o Cerrado e se alcançam a cadeia de fornecimento de forma suficiente.
Tabela 7. Empresas frigoríficas auditadas, regiões de abrangência e empresas auditoras responsáveis. Fonte: MPF & Boi na Linha, 2025.
Limitações do monitoramento dos frigoríficos no Cerrado
O monitoramento da cadeia da carne no Cerrado enfrenta uma limitação estrutural que precisa ser compreendida para além dos números: a maior parte dos sistemas de controle desenvolvidos até hoje foi criada para responder ao desmatamento na Amazônia. Os TACs da Carne, os protocolos de auditoria e os sistemas de monitoramento de fornecedores foram construídos ao longo de anos de pressão concentrada nesse bioma, impulsionados pelo Ministério Público Federal, por organizações da sociedade civil e por compradores internacionais que exigiam garantias sobre a origem da carne. O resultado foi um conjunto de ferramentas razoavelmente desenvolvido para a Amazônia, mas que não foi desenhado para as especificidades do Cerrado.
Essas especificidades importam. No Cerrado, como já discutido, uma parcela expressiva do desmatamento ocorre de forma legalmente permitida em imóveis rurais privados. Isso significa que verificar se houve desmatamento ilegal não é suficiente: é preciso saber também se a empresa tem política para evitar a conversão recente de vegetação nativa mesmo quando autorizada pela lei, caso esse seja o compromisso que ela assumiu publicamente. Esse é um critério mais exigente e mais difícil de verificar do que a simples conformidade legal.
Os dados mostram a escala do problema. O Cerrado abriga 1.365.597 fazendas, das quais 973.705, ou 71%, possuem pastagem com área de pelo menos um hectare. Para entender o que isso significa em termos de monitoramento, é preciso considerar onde essas fazendas estão. Apenas 209.481 delas, ou 22% do total com pastagem, estão localizadas dentro da Amazônia Legal, que é justamente a região onde os sistemas de rastreabilidade dos frigoríficos foram historicamente concentrados. As outras 764.224 fazendas com pasto, que representam 78% do total, estão fora desse limite e, na prática, fora do alcance efetivo de qualquer mecanismo de monitoramento vigente.
De forma direta, a grande maioria das propriedades que potencialmente fornecem gado no Cerrado opera sem qualquer verificação efetiva por parte dos frigoríficos. Cada uma dessas propriedades representa um ponto potencial de entrada de gado oriundo de áreas desmatadas na cadeia produtiva formal, sem que ninguém esteja olhando.
Essa lacuna não é acidental. Ela decorre diretamente da forma como os compromissos contra o desmatamento foram estruturados ao longo dos anos: restritos à Amazônia Legal e voltados quase exclusivamente aos fornecedores diretos, ou seja, à fazenda que vende o boi diretamente ao frigorífico. No Cerrado, onde se concentram 70% das fazendas com pasto fora da Amazônia Legal, o monitoramento é mínimo ou simplesmente inexistente.
O problema se aprofunda quando se olha para a cadeia indireta. Os fornecedores indiretos são as fazendas por onde o animal passou antes de chegar ao fornecedor direto, nas etapas de cria e recria. Essas propriedades são submetidas a um nível de monitoramento muito inferior ao dos fornecedores diretos e, na maioria dos casos, sequer são acompanhadas. Considerando que o Cerrado abriga quase um milhão de fazendas com pasto, a ausência de compromissos contra o desmatamento que abranjam essa cadeia indireta torna o controle estruturalmente insuficiente: mesmo que um frigorífico verifique a fazenda que lhe vende diretamente, o animal pode ter passado por diversas outras propriedades antes de chegar lá, sem que nenhuma delas tenha sido verificada.
Para que o controle da cadeia da carne avance de forma efetiva no Cerrado, os frigoríficos precisarão adaptar seus sistemas de rastreabilidade ao bioma, incorporando bases fundiárias, dados ambientais, informações de trânsito animal, registros do Cadastro Ambiental Rural e critérios específicos para as particularidades da região. Sem essa adaptação, a maior parte da cadeia permanecerá fora do alcance efetivo de qualquer verificação, independentemente dos compromissos declarados pelas empresas.
Figura 3. Fazendas localizadas no bioma Cerrado que são potencialmente monitoráveis pelos frigoríficos que assinaram Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne com abrangência na Amazônia Legal. Fonte: MapBiomas (2024) e SICAR (2025).
Recomendações
Os resultados do Radar Verde Cerrado 2026 evidenciam a necessidade de avanços estruturais nas políticas socioambientais dos frigoríficos atuantes no bioma Cerrado, conforme as recomendações a seguir:
- Ampliar os compromissos contra o desmatamento no Cerrado. Os frigoríficos devem adotar políticas contra o desmatamento aplicáveis explicitamente ao Cerrado, e não apenas à Amazônia. Essas políticas devem definir critérios claros para bloquear compras de fazendas com desmatamento, embargos ambientais, sobreposição com áreas protegidas ou outras irregularidades socioambientais. Também devem deixar claro se a empresa pretende excluir apenas o desmatamento ilegal ou também a conversão recente de vegetação nativa, mesmo quando autorizada. Essa distinção é decisiva no Cerrado, porque o Código Florestal permite percentuais menores de Reserva Legal em grande parte do bioma do que em áreas de floresta na Amazônia Legal (Brasil, 2012)
- Monitorar fornecedores diretos e indiretos. O controle apenas dos fornecedores diretos é insuficiente para demonstrar que a carne está livre de desmatamento. Os frigoríficos devem avançar para o monitoramento gradual dos fornecedores indiretos, usando informações de trânsito animal, Cadastro Ambiental Rural, bases fundiárias, dados de desmatamento e auditorias independentes. A nova agenda do MPF para fornecedores indiretos na Amazônia mostra que esse tema já é reconhecido como prioridade para a cadeia da pecuária e deve orientar avanços também no Cerrado (MPF, 2026; Boi na Linha, 2026).
- Garantir transparência ativa. A verificação independente é condição para a confiabilidade dos resultados. Recomenda-se ampliar a cobertura de auditorias e adotar protocolos conjuntos entre empresas, garantindo a padronização de critérios e a comparabilidade entre avaliações. Os frigoríficos devem divulgar publicamente suas políticas socioambientais, dados de compra de gado e resultados de auditorias independentes, além de responder aos questionários de iniciativas como o Radar Verde, fornecendo evidências verificáveis de seus compromissos.
- Aderir a protocolos verificáveis para o Cerrado. Iniciativas como o Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado oferecem uma base para harmonizar critérios e reduzir a fragmentação das regras entre empresas. A adesão, porém, precisa ser acompanhada de implementação efetiva, divulgação de resultados e auditoria independente. O compromisso deve ser verificável, comparável e aplicável às áreas reais de compra dos frigoríficos.
- Envolver compradores, financiadores e investidores. Compradores de carne, redes varejistas, bancos e investidores podem acelerar a melhoria do setor ao exigir evidências de controle de fornecedores diretos e indiretos no Cerrado. Critérios de compra e financiamento devem considerar não apenas a existência de políticas, mas sua aplicação comprovada. Empresas que não divulgam dados, não respondem a questionários e não apresentam auditorias independentes devem ser tratadas como empresas de maior risco de transparência.
Referências
- Agência Brasil. (2025). Cerrado brasileiro perdeu 28% da vegetação nativa em 40 anos.
- Boi na Linha. (2024). Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado.
- Boi na Linha. (2026). Fornecedores indiretos: documento apresenta novas diretrizes do MPF.
- Brasil. (2012). Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012. Código Florestal Brasileiro.
- Brasil. (2025). Dados do cadastro no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI-POA) das agências estaduais de defesa agropecuária.
- Da Mata, D., Dotta, M., & Severnini, E. R. (2026). Industrial activity, state capacity, and deforestation: Evidence from Brazil (NBER Working Paper No. 34751). National Bureau of Economic Research.
- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. (s.d.). Área de Reserva Legal — Código Florestal.
- Gibbs, H. K., Munger, J., L’Roe, J., Barreto, P., Pereira, R., Christie, M., Amaral, T., & Walker, N. F. (2016). Did ranchers and slaughterhouses respond to zero-deforestation agreements in the Brazilian Amazon? Conservation Letters, 9(1), 32–42.
- Grupo de Trabalho de Fornecedores Indiretos. (2025). Cadeia da carne no Brasil.
- MapBiomas. (2024). Destaques do mapeamento anual de cobertura e uso da terra: Bioma Cerrado.
- MapBiomas. (2025a). Desmatamento caiu em todos os biomas brasileiros em 2024.
- MapBiomas. (2025b). Relatório Anual do Desmatamento no Brasil 2024.
- Ministério da Agricultura e Pecuária. (2025). Registro de estabelecimentos — SIF ou ER.
- Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. (2022). Cerrado.
- Ministério Público Federal. (2026). MPF aprimora regras para controle de fornecedores indiretos na cadeia da pecuária na Amazônia.
- MPF & Boi na Linha. (2025). TAC da Carne Legal: Resumos públicos do 2º ciclo unificado de auditorias na pecuária da Amazônia.
- Proforest & Imaflora. (2024). Protocolo de Monitoramento Voluntário de Fornecedores de Gado no Cerrado.
- Radar Verde. (2025a). Pesquisa 2025. Instituto O Mundo Que Queremos e Imazon.
- Radar Verde. (2025b). Empresas frigoríficas — Pesquisa 2025. Instituto O Mundo Que Queremos e Imaz
- Radar Verde. (2026). Pesquisa 2026 — Cerrado. Instituto O Mundo Que Queremos e Imazon.
- Rausch, L. L., Gibbs, H. K., Schelly, I., Brandão Jr., A., Morton, D. C., Carneiro Filho, A., Strassburg, B., Walker, N., & Noojipady, P. (2019). Soy expansion in Brazil’s Cerrado. Conservation Letters, 12(6), e12671.
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