Áreas úmidas da Amazônia estão em risco: 47% não têm proteção e milhões de hectares estão sob pressão

10/02/26

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Zuley Cáceres - Peru

A Amazônia passa a contar com o mapeamento mais completo já realizado de suas áreas úmidas: foram identificados 151,7 milhões de hectares, o equivalente a 22% de toda a região amazônica, com precisão técnica de 82,2%. O dado mais preocupante, no entanto, é que 47,4% dessas áreas não possuem nenhum tipo de proteção legal, permanecendo expostas a atividades predatórias e à degradação ambiental.

Os resultados foram apresentados pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG) durante o encontro Áreas Úmidas Amazônicas, realizado em 4 de fevereiro, em Lima, no Peru. Na ocasião, foram divulgados os principais resultados do projeto “Mapeamento e desenvolvimento de uma estratégia de conservação e gestão para as áreas úmidas amazônicas”, desenvolvido desde 2023 no Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, Brasil e Venezuela.

A análise também revela a perda de 7,4 milhões de hectares de cobertura de água até 2020, aos quais se somam outros 800 mil hectares perdidos entre 2021 e 2024. A mineração industrial afeta diretamente cerca de 12% do território mapeado, enquanto 80% das áreas úmidas estão localizadas a menos de 50 quilômetros de obras de infraestrutura, como usinas hidrelétricas. Soma-se a esse cenário a influência das mudanças climáticas: 18,6 milhões de hectares apresentam redução da água superficial associada a secas extremas e à diminuição das chuvas.

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O estudo, baseado em imagens de satélite e em indicadores de integridade ecológica, bem-estar humano e pressões antrópicas, permitiu identificar a extensão, a tipologia e o estado atual de manguezais, igapós, pântanos e outros ambientes úmidos distribuídos pela bacia amazônica. A pesquisa também definiu áreas prioritárias para conservação e manejo e por meio do trabalho em conjunto das instituições parceiras desenvolveu ações em escala regional, nacional e subnacional, criando uma base de dados estratégica para fortalecer políticas públicas.

“O estudo demonstra que não é possível compreender a Amazônia a partir das fronteiras de um único país. O que acontece na porção mais alta dos Andes impacta diretamente os regimes hídricos na foz do rio Amazonas”, explicou Renzo Piana, diretor-executivo do Instituto del Bien Común (IBC), ao destacar a necessidade de uma abordagem pan-amazônica.

As áreas úmidas desempenham funções essenciais para o equilíbrio ambiental: regulam o clima, armazenam água, mantêm a biodiversidade e garantem os meios de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais. Esses povos, inclusive, tiveram papel fundamental na construção do estudo. Como destacou Jammer Manihuari, vice-coordenador da COICA: “Sem os povos indígenas, as áreas úmidas não existiriam.”

Para fortalecer a proteção desses ecossistemas, os pesquisadores definiram três frentes de atuação: a preservação, voltada à manutenção das áreas úmidas mais conservadas para assegurar a regulação climática; a gestão, com a implementação de sistemas de alerta em regiões sob pressão para proteger a segurança alimentar e o ciclo hidrológico; e a restauração, por meio de medidas urgentes de recuperação ecológica e da regulamentação das atividades nos territórios, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Iniciado em 2023 e desenvolvido no Peru, Bolívia, Colômbia, Equador, Brasil e Venezuela, o projeto utilizou imagens de satélite e indicadores de integridade ecológica, bem-estar humano e pressões antrópicas para mapear áreas úmidas, como manguezais, igapós, pântanos e outros ecossistemas distribuídos pela bacia amazônica. O trabalho também avaliou o estado de conservação desses ambientes, resultando em uma base de dados robusta para subsidiar a formulação de políticas públicas.

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