Segunda expedição ao Quilombo Gurupá avança no monitoramento da água e dos açaizais

Nova etapa da pesquisa dá continuidade ao acompanhamento dos impactos das mudanças climáticas e inclui treinamento sobre qualidade da água e novos sobrevoos com drones

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Morador do Quilombo Gurupá durante transporte de barco (Foto: Armando Ribeiro/Imazon)
Morador do Quilombo Gurupá durante transporte de barco (Foto: Armando Ribeiro/Imazon)

Depois de iniciar o monitoramento da qualidade da água e dos açaizais no Quilombo Gurupá, no arquipélago do Marajó, uma equipe composta por pesquisadores de diferentes instituições retorna à comunidade para uma nova etapa do projeto. A segunda expedição ocorreu entre 31 de agosto e 04 de setembro e deu continuidade à coleta de informações iniciada em maio de 2026. O objetivo é avançar de um retrato pontual e passar a acompanhar as transformações do local ao longo do tempo.

A primeira expedição representou o início de um esforço para compreender como as mudanças climáticas podem afetar dois recursos fundamentais para o cotidiano da comunidade: a água consumida pelos moradores e os açaizais, que também têm importância para a subsistência e a economia local. A comparação entre diferentes momentos é importante para compreender melhor as mudanças observadas pela comunidade e produzir informações que possam apoiar estratégias de adaptação.

“Nessa região, o segundo semestre é caracterizado por ser mais quente e seco. Então, é importante entendermos como funcionam as dinâmicas naturais locais e como elas afetam a fauna e flora para podermos compreender o impacto das mudanças climáticas na região. Ou seja, é mais um passo em um processo de acompanhamento que busca entender como essas transformações podem evoluir e quais caminhos podem ajudar a comunidade a se adaptar”, ressalta a pesquisadora do Imazon Júlia Ribeiro.

Devolutiva para a comunidade do Quilombo Gurupá dos resultados da primeira expedição (Foto: Armando Ribeiro/Imazon)
Devolutiva para a comunidade do Quilombo Gurupá dos resultados da primeira expedição (Foto: Armando Ribeiro/Imazon)

Além de acompanhar o mapeamento, a segunda expedição foi um momento importante de dar uma devolutiva à comunidade sobre os primeiros dados coletados. O pesquisador Cícero Augusto, do Instituto Socioambiental (ISA), destaca que esses resultados servem como ponto de partida para discutirmos os processos de alterações no clima que já estão sendo percebidos pelos moradores.

“São populações que estão entre as mais afetadas por essas transformações, por isso é fundamental pensar em estratégias de enfrentamento a partir dos seus próprios saberes e das estruturas que já existem na comunidade. Eles convivem com essas mudanças há alguns anos e relatam sinais como o aumento da temperatura, chuvas fora de época, a redução da produção de açaí e a salinização da água”, ressalta Cícero.

Novos mapeamentos com drone

Na primeira expedição, um drone equipado com sensor LiDAR ajudou a equipe a construir uma representação tridimensional da floresta e a compreender melhor a distribuição dos açaizais no Quilombo Gurupá. As imagens permitiram analisar características como densidade, altura das palmeiras e presença de inflorescências.

Agora, durante o período de frutificação, a equipe retorna aos mesmos pontos para complementar esse levantamento. O objetivo é registrar, em imagens de alta resolução, diferentes condições dos cachos de açaí, incluindo frutos verdes, cachos saudáveis, sinais de abortamento e casos em que os frutos secam ainda na palmeira. A coleta busca relacionar essas informações com os dados obtidos na primeira campanha e ajudar a identificar onde os problemas relatados pelos moradores estão ocorrendo.

“Estamos voltando agora junto com a comunidade para entender a distribuição desse problema, saber onde ele está acontecendo e, quem sabe, no futuro, conseguir chegar ao porquê e a alguma solução. O açaí, além de ser uma das bases da economia local, também é parte da cultura, tradição e do modo de vida deles”, explica Leonardo Belli, estudante de engenharia que atua na Bioflore.

Área de açaizal que está sendo monitorada pelo projeto (Imagem: Armando Ribeiro/Imazon)
Área de açaizal que está sendo monitorada pelo projeto (Imagem: Armando Ribeiro/Imazon)

As novas imagens também serão utilizadas no desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial capazes de reconhecer e analisar os açaizais em larga escala. Por meio de técnicas de visão computacional, os pesquisadores pretendem automatizar a identificação das palmeiras e, a partir de imagens de alta resolução dos cachos, treinar modelos para estimar a produtividade e reconhecer diferentes condições dos frutos.

Segundo o cientista de dados Matheus Fuza, a tecnologia pode ajudar a transformar grandes volumes de imagens em informações que facilitem o monitoramento. “Por meio da inteligência artificial, conseguimos ampliar essa análise para grandes extensões e obter informações sobre onde estão os açaizais e como está a produção dos cachos. Isso pode ajudar a identificar áreas de maior ou menor produtividade e entender se as palmeiras estão saudáveis ou enfrentando algum problema”, explica.

A expectativa é que essas informações também possam ser compartilhadas com a comunidade e contribuir para um acompanhamento mais preciso dos açaizais. Com mapas de produtividade e saúde das palmeiras, os dados poderão apoiar o planejamento e a identificação de possíveis estratégias para lidar com os problemas observados na produção.

Treinamento de qualidade da água foi ministrado para moradores

A II Expedição também contou com a continuidade da campanha pela qualidade da água da região, retornando no início de setembro para coleta de amostras durante o período de estiagem. As coletas foram realizadas nos mesmos pontos dos rios Arari e Gurupá e de dois igarapés relevantes para a comunidade, além de poços e fontes de uso comunitário.

Durante três dias, os moradores participaram de uma oficina sobre qualidade da água, que combinou conteúdos teóricos e atividades práticas. A capacitação foi realizada a partir do interesse demonstrado pela comunidade em acompanhar as condições da água utilizada no seu cotidiano. Ao final, foram deixados quatro kits básicos de análise de potabilidade, Colipaper, que serão utilizados para verificar diferentes fontes, como poços, torneiras e rios em diferentes áreas do território.

“Entender mais sobre a questão da saúde da água nos nossos poços e o tratamento que ela está recebendo é muito importante para comunidades tradicionais porque nos possibilita ter maior autonomia para fazer essas análises de qualidade de água e sermos mais assertivos caso ocorra algum problema, como em casos de doenças. É ainda mais essencial porque estamos falando de uma comunidade ribeirinha, então a água é fundamental para a gente”, relata a professora de ciências e bióloga Isabel Batista.

Pesquisadora Gina Boemer e moradores da comunidade participantes da oficina de qualidade da água (Imagem: Armando Ribeiro/Imazon)
Pesquisadora Gina Boemer e moradores da comunidade participantes da oficina de qualidade da água (Imagem: Armando Ribeiro/Imazon)

Os equipamentos permitem avaliar parâmetros como pH, condutividade, oxigênio, ferro, amônia, cloreto, alcalinidade, dureza e turbidez, além da presença de coliformes. A proposta é que os kits funcionem como uma ferramenta de educação ambiental e em saúde, ajudando os moradores a identificar alterações que mereçam uma investigação mais aprofundada. Os testes não substituem análises laboratoriais, mas podem indicar quando é necessário buscar apoio especializado.

“Foi uma troca: eles aprenderam com a gente, nós aprendemos muito com eles e deixamos esse legado para que possam começar a relacionar questões como a sazonalidade e o uso do território com a qualidade da água”, explica Gina Boemer, bióloga e pesquisadora da Fiocruz que conduziu a oficina.

Parte da equipe de pesquisadores e quilombolas que participaram da oficina de qualidade de água (Imagem: Armando Ribeiro/Imazon)
Parte da equipe de pesquisadores e quilombolas que participaram da oficina de qualidade de água (Imagem: Armando Ribeiro/Imazon)

Uso de drone auxilia no mapeamento das áreas úmidas

A ida ao Quilombo Gurupá também foi uma oportunidade para ampliar o uso de tecnologias de mapeamento em outras frentes de pesquisa do Imazon. Durante o trabalho de campo, parte da equipe realizou sobrevoos com drone, com foco no mapeamento de áreas úmidas.

Parte da equipe de pesquisadores e quilombolas durante sobrevôo com  drone (Imagem: Imazon)
Parte da equipe de pesquisadores e quilombolas durante sobrevôo com drone (Imagem: Imazon)

Esses ecossistemas estão presentes em diferentes paisagens da Amazônia e são caracterizados pela presença permanente ou temporária de água ou por solos encharcados, como rios, igarapés, várzeas e florestas alagadas. Além de abrigarem uma grande diversidade de espécies, as áreas úmidas desempenham funções importantes para o ciclo da água, a regulação do clima e a oferta de alimentos e outros recursos para as populações.

O uso de drones permite obter imagens detalhadas e observar características da paisagem que podem ser difíceis de identificar a partir do solo e de imagens de satélite. Esse tipo de levantamento pode complementar outras formas de monitoramento e ajudar a produzir informações mais precisas sobre a distribuição e as características das áreas úmidas.

“O sobrevoo com drone  foi uma oportunidade de aproximar a equipe dessa tecnologia e entender, na prática, como ela pode contribuir para o nosso trabalho de monitoramento. O uso de drones permite obter imagens com um nível de detalhe muito maior e alcançar uma cobertura que seria mais difícil de fazer apenas com observações de campo. Para o mapeamento de áreas úmidas, isso é especialmente importante porque conseguimos registrar diferentes características da paisagem e gerar informações que ajudam a compreender melhor esses ambientes”, observa a pesquisadora do Imazon Bianca Santos.

Pesquisadora Bianca Santos durante o sobrevoo de áreas úmidas com uso de drone (Imagem: Armando Ribeiro/Imazon)
Pesquisadora Bianca Santos durante o sobrevoo de áreas úmidas com uso de drone (Imagem: Armando Ribeiro/Imazon)

Expedição partiu de uma demanda dos moradores locais

A segunda expedição dá continuidade a uma iniciativa realizada pelo Imazon em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), a startup Bioflore e a Associação de Remanescentes de Quilombo do Rio Gurupá (ARQUIG), com apoio de uma pesquisadora da Fiocruz e de quilombolas. O trabalho integra os projetos Áreas Úmidas e Vulnerabilidade Hídrica, coordenados pela Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG).

A iniciativa parte de mudanças que vêm sendo observadas pelos moradores. Entre os sinais relatados, estão a redução do nível de lagos, rios e igarapés, a diminuição da presença de peixes, alterações na produção de açaí e o aumento da salinidade da água. Na região do Marajó, esse processo pode se intensificar durante o período mais seco, entre julho e dezembro, quando a entrada de água do oceano aumenta a salinidade dos corpos hídricos.

Texto: Armando Ribeiro/Imazon

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