O Governo e a Floresta

A tendência de redução no ritmo do desmatamento da Amazônia foi confirmada pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que faz um levantamento paralelo ao do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e divulga os resultados da aferição mensalmente. De acordo com o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), em janeiro de 2009, a floresta amazônica perdeu 51 quilômetros quadrados de cobertura vegetal, uma redução de 38% em relação a janeiro do ano anterior. O resultado foi divulgado na quinta-feira 5.

Dois dias antes, o Inpe havia divulgado a área desmatada entre novembro e janeiro, que chegou a 754 quilômetros quadrados, resultado 70% menor que no mesmo período do ano anterior. Somente em janeiro, o desmate teria alcançado 222 quilômetros quadrados. A diferença resultados apresentados pelas duas instituições é atribuída à metodologia distinta no tratamento dos dados coletados pelos satélites. Além disso, a aferição do Imazon não inclui o estado do Maranhão na contagem.

De acordo com a ONG, a maioria dos desmates verificados em janeiro ocorreu em Mato Grosso (85% do total), seguido pelo Pará (7%) e Tocantins (5%). Em entrevista ao blog da Sustenta!, o engenheiro florestal Paulo Barreto, mestre em ciências florestais pela Universidade de Yale (Estados Unidos) e pesquisador sênior do Imazon, fala sobre as razões que podem explicar a diminuição no ritmo da devastação da Amazônia:

O que explica a redução dos índices de desmatamento?

Em 2008, o governo federal adotou duas medidas bem sucedidas contra o desmatamento. Primeiro, focou as ações de fiscalização nos 36 municípios mais críticos, aqueles quemais contribuíram para a devastação do bioma nos últimos anos. Isso permitiu àsautoridades agir com mais celeridade, tanto na autuação dos infratores como na rápida fixação de penas. Além disso, em todo o bioma da Amazônia, o governo restringiu a oferta de crédito aos imóveis sem licença ambiental ou sem o título de posse da terra. Essas medidas passaram a vigorar em meados do ano passado, desde quando passamos a identificar uma queda mais acentuada no ritmo do desmatamento na região.

E como saber se outros fatores não interferiram nesse resultado, como o ritmo da atividade agropecuária na região?

Historicamente, a variação no preço da soja e do gado está atrelada ao desmatamento.Quando o valor desses produtos subia no mercado internacional, a devastação era maior. Quando a demanda pelas commodities caía, a floresta respirava com mais alívio. Mas o curioso é que, em 2007, o preço da soja e da carne aumentou 9%. Esperava-se um aumento do desmatamento em 2008, mas desde julho a devastação tem caído fortemente.

Seria, então, efeito das políticas públicas?

Sim. Em julho do ano passado, por exemplo, o governo apreendeu cerca de 3 mil cabeças de gado em uma de suas unidades de conservação. Em menos de dois meses, tempo recorde, já havia leiloado esse gado como forma de punir os infratores. E obteve autorização judicial para fazer o mesmo em outras unidades de conservação. Mais de 36 mil bois foram confiscados. Isso levou a uma drástica redução do desmatamento em São Félix do Xingu, no Pará, que sempre foi uma das cidades mais críticas em termos de desmatamento. Além disso, verificamos que cada um daqueles 36 municípios escolhidos como foco das fiscalizações pouparam em média 42 quilômetros de floresta da devastação, ao passo que, em todos os outras cidades da Amazônia Legal, a média era de 2 quilômetros quadrados. Em outras palavras, onde a fiscalização foi mais intensa, houve uma redução mais acentuada do desmatamento.

This post was published on 1 de agosto de 2013

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