Desmatamento e pecuária não trazem riquezas para Amazônia, comprova estudo

Desmatamento e pecuária não trazem riquezas para Amazônia, comprova estudo

RIO – No momento em que fervem as discussões em Brasília sobre o uso e a ocupação da Amazônia, um novo estudo reforça a tese de que a dinâmica do desmatamento – a brutal conversão da floresta em campos para a agricultura e a pecuária – não se sustenta também do ponto de vista econômico, além do ambiental, gerando apenas 8% do Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com os pesquisadores, a extração dos recursos naturais cria, inicialmente, uma frágil sensação de prosperidade para os municípios em torno da floresta, logo seguida por um forte declínio nos seus índices de desenvolvimento.

O estudo, publicado na revista “Science”, sugere que esse processo – chamado de economia de expansão e contração ou, simplesmente, boom e colapso – seja substituído por incentivos financeiros e políticas voltadas para o desenvolvimento sustentável.

-Esse processo de boom e colapso tem sido a regra na Amazônia há décadas e, agora, confirmamos que ele não se sustenta economicamente e gera apenas 8% do PIB nacional – afirma o pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), Adalberto Veríssimo, um dos autores do estudo.

-Quando os recursos naturais das áreas desmatadas se esgotam totalmente, crescem os índices de desemprego e até mesmo de violência. E aí, aquelas populações se veem na mesma situação dos moradores das áreas que não foram devastadas. Ou até mesmo em situação pior. É um processo insustentável, que só favorece alguns poucos grupos.

A mata sofre com o ciclo vicioso

No estudo, foram analisados 286 municípios próximos à floresta, uma das regiões mais pobres do país, um contraste com as riquezas naturais daquele ecossistema. Os pesquisadores usaram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU – que inclui expectativa de vida, alfabetização e padrão de vida – para avaliar a prosperidade dessas comunidades, em diferentes estágios do desmatamento.

-Esse processo se inicia com a extração de madeira, que leva mais ou menos uma década, quando é retirada a madeira de primeira qualidade, depois a de segunda e, por fim, a de terceira qualidade – explica o pesquisador do Imazon.

-A partir daí, com a floresta machucada, empobrecida, queima-se o solo para seu uso como pastagem. Esse segundo processo dura cerca de cinco anos, após o qual o pasto fica ruim, degradado, gerando uma pecuária de má qualidade. E aí, quando a floresta foi embora e o pasto ficou ruim, essas regiões entram em colapso, já que sua economia depende daqueles recursos naturais que foram destruídos.

O pesquisador cita o município de São Félix do Xingu, no Pará, um dos campeões do desmatamento no país, como um exemplo perfeito desse frágil modelo de expansão econômica.

-São Felix está na fase final desse boom, graças à extração predatória da madeira e da expansão da pecuária. É um momento em que o IDH tem um crescimento relativo, acompanhado também por conflitos de terra, já que as pessoas estão brigando por acesso a recursos naturais, que são finitos. Mas a tendência é que, assim que esses recursos se esgotem, os madeireiros e os pecuaristas deixem para trás a terra devastada e migrem para outros municípios, avançando mais na floresta, num ciclo vicioso.

Para Veríssimo, esse tipo de economia predatória – que gera a maior parte das emissões de CO2 do Brasil – tem algumas exceções, que, segundo ele, não podem ser tomadas como bons exemplos de desenvolvimento.

-É o caso dos municípios que se mantêm por causa da soja ou da mineração. A mineração gera alguma riqueza por causa dos royalties. E a soja é extremamente lucrativa, mesmo com o solo perdendo sua fertilidade natural. Mas são casos isolados. Não há minério por toda a Amazônia. E a floresta também não é viável para a soja e para a agricultura em geral, já que tem muita chuva e solos pobres. Esses são casos específicos, isolados, que estão longe de ser uma solução para a região.

Nas contas dos pesquisadores, a transição dessa dinâmica de boom e colapso para uma economia de baixas emissões de carbono custaria cerca de R$ 340 bilhões de reais, investidos ao longo de vinte anos (R$ 17 bilhões anuais).

-Não é um valor baixo, mas o governo já joga cerca de R$ 5 bilhões de reais por ano na Amazônia. Esse investimento seria necessário para, entre outras coisas, recuperar terras subaproveitadas, intensificar a pecuária e a agricultura sustentável, mantendo, assim, a floresta de pé – diz Veríssimo.

-O que não é possível é o governo aprovar medidas a favor do desmatamento, como as que rondam Brasília, e manter essa política que causa constrangimento no exterior e rende tão pouco para o PIB.