Imazon 35 anos: Preocupação com o desenvolvimento sustentável motivou iniciativas pioneiras como Municípios Verdes, IPS Brasil e Amazônia 2030

Temática tem sido central desde a década de fundação do instituto, em 1990

16/07/25

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Por Fernanda da Costa, coordenadora de comunicação do Imazon

Ribeirinha produzindo farinha na Flota de Faro no Pará Foto Márcio Nagano Imazon
Ribeirinha produzindo farinha na Flota de Faro no Pará (Foto: Márcio Nagano/Imazon)


Promover o desenvolvimento sustentável da Amazônia está no centro da missão do Imazon desde a sua fundação, em 1990. Nestes 35 anos, a organização participou de iniciativas pioneiras na área como as publicações Belém Sustentável, o programa Municípios Verdes, o Índice de Progresso Social (IPS) e o projeto Amazônia 2030. O instituto também liderou vários estudos sobre economia e desenvolvimento regional, entre eles artigos nas renomadas revistas científicas World Development e Science e uma série de pesquisas sobre a dinâmica do “boom-colapso“ do modelo de ocupação da região, que contou com parceria do Banco Mundial.

Entre as primeiras pesquisas específicas de desenvolvimento sustentável do Imazon estão “Lessons from aging the Amazon frontier: opportunities for genuine development“, de 1994, e “Developing a quantitative framework for sustainable resource-use planning in the Brazilian Amazon“, de 1995, essa última publicada na Word Development. Esses artigos resumem as questões críticas da região nas décadas de 80 e 90 e sugerem recomendações para que se tornem mais sustentáveis, como intensificar a produção agropecuária e adotar o manejo florestal.


O Imazon também publicou vários estudos com propostas para uma agenda de desenvolvimento dos estados, como “O Pará no Século XXI: Oportunidades para o Desenvolvimento Sustentável“, de 1998. Além disso, o instituto foi pioneiro em estudos com foco em indicadores de qualidade de vida na Amazônia, sendo os primeiros os livros “Belém Sustentável”, publicados em 2003 e de 2007.

Municípios Verdes: inovação no combate ao desmatamento


Para intensificar as ações previstas no Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), lançado em 2004, o governo federal publicou três anos depois o decreto 6.321/2007. Entre as medidas estabelecidas estavam a maior responsabilidade municipal no combate à derrubada da floresta, a restrição ao crédito a produtores irregulares e a divulgação pública da lista dos municípios críticos em relação ao desmatamento. Nessa lista, estava Paragominas, no Pará, município que foi laboratório do Imazon nos anos 90 para o desenvolvimento do modelo de manejo florestal.

Por causa dessa relação, o prefeito do município à época, Adnan Demachki, procurou a organização para colaborar com esforços de conseguir tirar Paragominas da lista crítica de desmatamento. E foi assim que a prefeitura lançou, em 2008, o programa Município Verde, que contou com apoio do Imazon e de outras instituições.

O primeiro passo do instituto foi realizar uma análise aprofundada do que estava acontecendo no território, publicada no estudo “Diagnóstico Socioeconômico e Florestal do município de Paragominas“, de 2009. “Além da redução do desmatamento, seria necessário aumentar os Cadastros Ambientais Rurais (CARs) para no mínimo 80% da área cadastráveis do  município”, lembra Paulo Amaral, pesquisador associado do Imazon e um dos autores da publicação.

Para auxiliar no combate à remoção das florestas, o instituto passou a enviar mensalmente ao município os polígonos e as coordenadas de todas as áreas abertas e  detectadas pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), indicando também se estavam dentro de áreas públicas ou privadas. Além disso, treinou servidores da prefeitura para irem a campo fiscalizar esses alertas e entender qual era o motivo daquela destruição. “Esse procedimento estabelecido de repasse mensal da informação ao município, verificação em campo da causa do desmatamento e tomada de decisão baseada nesse diagnóstico, configurou o que foi chamado de monitoramento colaborativo”, comenta Andréia Pinto, pesquisadora do Imazon e participante do programa.

Paragominas foi o primeiro município a deixar a lista dos maiores desmatadores (Foto: Agência Pará/Divulgação)
Paragominas foi o primeiro município a deixar a lista dos maiores desmatadores (Foto: Agência Pará/Divulgação)

Para aumentar as áreas cadastradas no  CAR, o que demandava uma grande mobilização dos produtores rurais, a prefeitura e o Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas  contaram com apoio do Imazon e da The Nature Conservancy (TNC). Além disso, em 2009, foi firmado um pacto municipal de combate ao desmatamento, que reuniu diversas instituições. “Esse compromisso uniu desde sindicato de produtores e indústrias madeiras até organizações sociais como o Lions e um clube de miss”, completa Amaral.

Como resultado desse esforço coletivo, Paragominas conseguiu alcançar as metas de redução de desmatamento e de registros no CAR, sendo o primeiro município a sair da lista dos que mais desmatavam, em 2010. Sucesso que inspirou o governo do Pará a lançar, em 2011, o Programa Municípios Verdes (PMV), com objetivo de disseminar as ações implantadas em Paragominas para outros territórios.

A iniciativa estadual, que também teve apoio do Imazon, contou com 105 (73%) dos 144 municípios paraenses. Com isso, o programa contribuiu com cerca de 1 milhão de km² e beneficiou uma população de mais de 5 milhões de pessoas. “Com o programa, além de outros municípios saírem da lista crítica, muitos servidores das secretarias municipais de meio ambiente foram treinados em geotecnologias aplicadas à gestão ambiental. Isso melhorou a massa crítica e a mão-de-obra na Amazônia”, ressalta Pinto.

Para auxiliar a implantar o programa nos territórios, o Imazon também publicou o guia “Municípios Verdes: caminhos para a sustentabilidade“, em 2013. A publicação detalha passo a passo como os outros municípios poderiam seguir o mesmo caminho de mais sustetável, a partir de nove ações principais: reduzir o desmatamento, ampliar o CAR, obter a Licença Ambiental Rural (LAR), promover a regularização fundiária, recuperar áreas degradadas, adotar o manejo florestal, criar boas práticas agropecuárias, implantar a gestão ambiental municipal e prestar contas à sociedade.

IPS: o melhor índice de qualidade de vida do país

Outra grande contribuição do Imazon na área de desenvolvimento sustentável foi o lançamento do Índice de Progresso Social (IPS) para a Amazônia Legal, em 2014, e para todo o Brasil, em 2024. Quando o trabalho na região amazônica começou, em 2014, o instituto foi pioneiro no mundo na adaptação da metodologia global para a escala municipal. Criado por pesquisadores das universidades de Harvard e MIT (Massachusetts Institute of Technology), o índice mundial havia sido lançado no mesmo ano para medir a qualidade de vida nos países.

“O IPS é um diagnóstico mais completo dos territórios, pois vai além da saúde, da educação e da renda, medidos pelo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Também entram dimensões como moradia, saneamento, segurança, meio ambiente, comunicação e direitos humanos. Então, tem essa vantagem de dar uma lente muito mais ampla para analisarmos um país, um estado ou um município”, explica o pesquisador Beto Veríssimo, coordenador do índice no Imazon.

Ao analisar a qualidade de vida nos 772 municípios da Amazônia Legal, o IPS Amazônia 2014 também representou a primeira aplicação subnacional do índice no mundo. “Esse lançamento teve um impacto global e inspirou a implementação do índice em outras regiões de países como Estados Unidos, México, Índia, Costa Rica, Colômbia e Uruguai”, comenta Veríssimo. Depois da estreia, o IPS Amazônia teve outras três edições: em 2018, 2021 e 2023.

Crianças na Flota de Faro, no Pará (Foto Márcio NaganoImazon)
Crianças na Flota de Faro, no Pará (Foto Márcio NaganoImazon)

Em 2024, o índice regional foi incorporado em um projeto mais ousado: o IPS Brasil, que analisou a qualidade de vida nos 5.570 municípios brasileiros (incluindo Brasília/Distrito Federal e Fernando de Noronha). Essa foi a maior experiência de aplicação do IPS no mundo em relação ao número de territórios analisados. “Tivemos um impacto enorme no uso desses dados no país inteiro, principalmente por jornalistas e gestores públicos. De forma geral, o índice mostrou que a renda do município, o PIB, não garante progresso social. Por isso, o IPS é uma excelente ferramenta para orientar políticas públicas”, comemora o pesquisador.

O IPS representou um ponto de virada na história do próprio Imazon, por ser a primeira vez que o instituto realiza um trabalho em escala nacional. “Também estamos atuando em parceria com quase 600 municípios dos estados do Amazonas, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba e Piauí para ajudá-los a usar o IPS como instrumento de gestão. Isto é, como se fosse uma bússola direcionada a melhorar a qualidade de vida das pessoas”, comenta Veríssimo. Outra expansão do IPS Brasil é a possibilidade do projeto criar metodologias para avaliações comunitárias, iniciativa chamada de “IPS Comunidades”.


Publicado novamente em 2025 e com previsão de atualização anual, o IPS Brasil já caminha para se tornar um índice de referência no país, assim como o PIB e o IDH. “Acredito que o futuro do IPS é estar cada vez mais presente no debate público, sendo usado como uma ferramenta de fortalecimento da cidadania”, conclui o pesquisador.

Amazônia 2030 e a agenda do desenvolvimento regional

Lançado em 2020 pelo Imazon em parceria com o Centro de Empreendedorismo da Amazônia, o Climate Policy Initiative (CPI) e o Departamento de Economia da PUC-Rio, o projeto Amazonia 2030 tem contado com a colaboração de mais de 120 pesquisadores de dezenas de instituições regionais, nacionais e internacionais. E o resultado foi a publicação de mais de 80 estudos sobre diversos temas chaves para o desenvolvimento econômico e social da Amazônia.

O objetivo da iniciativa é responder as seguintes questões: Como é possível conservar a floresta e os seus serviços ambientais associados e, ao mesmo tempo, melhorar a economia da Amazônia? Quais são os instrumentos de políticas públicas mais efetivos para atrair investimentos e desenvolver uma economia de baixo carbono na região? Como aprimorar o atual arcabouço de políticas públicas para propiciar o bem-estar da população amazônica? Apesar de as regiões tropicais úmidas (como é o caso da Amazônia) estarem atrasadas no desenvolvimento, quais são as oportunidades para o “leapfrogging” a partir das novas tecnologias? Quais são os elementos essenciais para a formação de uma identidade e cultura amazônica ligada à economia verde? Com mais de 75% da população morando em cidades, quais são as oportunidades para o desenvolvimento sustentável da região a partir desse fenômeno de urbanização? Como atrair e reter capital humano nas cidades amazônicas?


Por isso, conforme Veríssimo, um dos coordenadores do projeto, a ambição do Amazonia 2030 é estabelecer os fundamentos para uma agenda de desenvolvimento sustentável de médio prazo (até 2030) e com desdobramentos de longo prazo. “Muito embora o papel do governo federal seja crucial, o desenvolvimento da Amazônia dependerá do papel complementar dos estados. Além disso, considerando a importância estratégica da região para o equilíbrio ambiental do planeta, seria esperado um aporte expressivo de recursos dos países desenvolvidos, seja via mecanismo de fundos de desenvolvimento ou seja como recursos não reembolsáveis. Por fim, o desenvolvimento da região dependerá fortemente dos investimentos privados e da melhoria do ambiente de negócios na região”, completa.

Nesse sentido, o projeto indica que o papel do governo é o de alinhar incentivos e gerar um ambiente de segurança para as populações e os negócios na Amazônia. “Não apenas o atual contexto fiscal do país limita a atuação governamental, como a evidência mostra que governos, em geral, são mais bem-sucedidos em catalisar processos e sinalizar para a iniciativa privada do que atuar como operadores da economia”, afirma Veríssimo.

Castanha-do-Pará foi o primeiro produto compatível com a floresta a ter uma Mesa Executiva de Exportação, política pública sugerida pelo Amazônia 2030 (Foto: Arquivo Imazon)
Castanha-do-Pará foi o primeiro produto compatível com a floresta a ter uma Mesa Executiva de Exportação, política pública sugerida pelo Amazônia 2030 (Foto: Arquivo Imazon)

A abordagem do Amazônia 2030 para as florestas tem como base a eficiência no uso dos recursos naturais. Ou seja, cada hectare da região deve ser alocado para seu uso mais nobre. “Terra é um ativo que provê vários tipos de dividendos, seja em termos de serviços ambientais ou de produção. Enquanto o funcionamento dos mercados provê incentivos para os aspectos produtivos, a conservação e os serviços ambientais necessitam de políticas públicas para garantir sua provisão”, explica o pesquisador.

Nesse contexto, segundo ele, o desenho das políticas públicas deve simular sinais de preços para a provisão de serviços ambientais. “Mesmo na parte produtiva, na medida em que pode haver falhas de mercado e externalidades, a política pública tem papel importante a cumprir”, completa.

Entre as plublicações de destaque do projeto está o livro “Amazônia 2030: as bases para o desenvolvimento sustentável“, que reúne três relatórios considerados sínteses da iniciativa: “O Paradoxo Amazônico“, “As 5 Amazônias: bases para o desenvolvimento sustentável da Amazônia Legal“, e “Desmatamento zero e ordenamento territorial: fundamentos para o desenvolvimento sustentável da Amazônia“.

Alguns estudos da iniciativa também motivaram políticas públicas. São exemplos as publicações “Oportunidades para exportação de produtos compatíveis com a floresta na Amazônia brasileira“ e “Como a Bolívia dominou o mercado global de Castanha-do-Brasil?“, que mostravam que o país perdia para outras nações em desenvolvimento na venda internacional de produtos amazônicos. Essas análises contribuíram para a criação do programa federal Exporta Mais Amazônia, lançado em 2023.


Dentro da política, foram criadas Mesas Executivas de Exportação, cuja da castanha-do-Pará já foi lançada. Essa foi uma sugestão específica do estudo do Amazônia 2030 “Mesas Executivas de Exportação e o fomento aos produtos compatíveis com a floresta na Amazônia“.

Além disso, o projeto criou o curso de especialização “Amazônia 2030: Bases para o desenvolvimento sustentável“. Em duas edições, a capacitação já formou mais de 100 alunos que trabalham em órgãos públicos, ONGs e no setor privado da Amazônia ou com atuação na região. Também participaram lideranças de povos e comunidades tradicionais e formadores de opinião, como jornalistas e influenciadores.

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