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Imazon 35 anos: Como pesquisas dos anos 90 deram escala ao manejo florestal na Amazônia
Cientistas do instituto desenvolveram o primeiro projeto demostrativo da técnica em solo amazônico
11/07/25Por Fernanda da Costa, coordenadora de comunicação do Imazon
A Amazônia só possui hoje cerca de 3 milhões de hectares sob manejo florestal graças aos esforços de cientistas do Imazon que convenceram madeireiros, no início da década de 90, a cederem uma área para desenvolver um projeto demonstrativo no município de Paragominas, no Pará. O resultado dessa iniciativa foi o estabelecimento das bases técnicas do manejo florestal e o desenho de políticas públicas para o uso e a conservação da floresta. Além disso, o projeto revelou que a extração madeireira manejada era rentável e poderia ser feita em larga escala.
Tudo começou com a publicação dos primeiros estudos do instituto em revistas científicas internacionais, entre 1991 e 1995. À época, os pesquisadores do Imazon, sob a liderança do ecólogo Chris Uhl, investigavam a dimensão dos impactos da exploração madeireira na floresta e se haveria alguma solução para tornar essa atividade predatória sustentável. Ou seja: otimizando o retorno financeiro e minimizando os impactos ambientais.
Pesquisas que demandavam longas imersões em áreas de exploração madeireira. “Era um trabalho de campo extremamente intenso. Já ficamos 40 dias seguidos no município de Tailândia, a mais de 200 km de Belém, coletando dados no meio da floresta. Era fisicamente muito exaustivo”, lembra Beto Veríssimo, um dos cofundadores do Imazon e coautor desses estudos.
A análise da atividade madeireira no município originou o estudo “Social, economic, and ecological consequences of selective logging in an Amazon frontier: the case of Tailândia“, que foi a primeira publicação do Imazon em uma revista científica internacional, a Forest Ecology and Management, em 1991. A pesquisa mostrou que as 48 serrarias presentes em Tailândia em 1989 apresentavam baixa eficiência no uso da madeira (eram necessários 3 m³ de tora para produzir 1 m³ de madeira serrada) e a extração causava danos ambientais severos. “O impacto era alto, havia uma degradação forte da floresta, que também ficava sujeita a ter incêndios”, comenta Paulo Barreto, outro cofundador do Imazon e coautor das primeiras pesquisas.
Outros três importantes estudos foram essenciais para a avaliação da exploração madeireira na Amazônia. O primeiro é “Logging impacts and prospects for sustainable forest management in an old Amazonian frontier: The case of Paragominas“, de 1992. Essa publicação sobre a atividade madeireira em Paragominas documentou a existência de 238 serrarias, o que fazia o município ser o maior polo de extração de madeira tropical do mundo na época. A pesquisa revelou que cada árvore derrubada danificava severamente mais 27, além de causar outros impactos ambientais. Apesar disso, o trabalho mostrou que a atividade madeireira realizada sob regime de manejo florestal poderia ser uma alternativa econômica para manter a floresta em pé.
O segundo é “Extraction of a high-value natural resource in Amazonia: the case of mahogany“, de 1995. A pesquisa sobre mogno, à época a espécie mais valiosa da Amazônia, foi resultado de quase dois anos de trabalho de campo no sul do Pará. O estudo documentou a dinâmica econômica e social e os impactos ambientais da extração da árvore. Como resultado, a publicação se tornou uma referência na ecologia do mogno e serviu de base para a proteção da espécie na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES). Além disso, o trabalho contribuiu para o desenvolvimento das bases para o manejo florestal do mogno, reunidas posteriormente na publicação do Imazon “Mogno na Amazônia Brasileira: Ecologia e Perspectivas de Manejo“, de 2002.
O terceiro é “Logging along the Amazon river and estuary: patterns, problems and potential“, também de 1995. O estudo demandou que os pesquisadores visitassem todos os municípios ao longo do Baixo Rio Amazonas, trabalho que foi feito durante um ano, de 1990 a 1991. Nessas viagens, eles registraram 1.295 indústrias madeireiras em funcionamento e conduziram quase 200 entrevistas formais com extratores, transportadores, proprietários de serrarias e varejistas. Além de centenas de entrevistas informais com moradores da região, como comerciantes, capitães de barcos e políticos. Publicação que se tornou um clássico sobre a atividade madeireira nas florestas de várzea.
Logística difícil, tensão no campo e acampamentos precários
Para realizar esses mapeamentos científicos inéditos sobre a exploração madeireira na Amazônia, os pesquisadores do Imazon tiveram de enfrentar uma série de desafios. Entre eles estavam logísticas difíceis, tensões no campo e acampamentos precários. Veríssimo e Barreto contaram que passavam horas em estradas de difícil acesso sem contar com as tecnologias de geolocalização e comunicação disponíveis hoje, além de longas viagens de barco.
“Teve um episódio tenso uma vez que fomos fazer um trabalho de campo, autorizado por uma pessoa da serraria, mas quando chegamos na área, de madrugada, alguém da família dessa pessoa nos mandou ir embora. A gente tinha feito uma viagem muito difícil, de 180 quilômetros, com estradas de chão, e tivemos que sair”, lembra Barreto.
Veríssimo conta também que a violência da época era diferente da atual, que hoje é relacionada ao crime organizado e aos narcogarimpos. “Havia uma violência ligada à terra. Tinha muita disputa, lideranças dos movimentos sociais eram assassinadas. Então, você chegava em lugares que eram assentamentos, ocupações, invasões ou grilagem. Havia um ambiente social tenso”, comenta.
Somado a isso, ainda havia a dificuldade física dos pesquisadores de passar dias em acampamentos precários, uma vez que viviam sob as mesmas condições dos extratores de madeira. “Eram abrigos de lona sobre o chão de terra, com uma cozinha improvisada”, relata Barreto.
Ele lembra que em um desses acampamentos a situação era ainda pior, pois havia pouca água. “Os trabalhadores fizeram uma barragem improvisada num pequeno igarapé, mas a água já estava muito suja quando a gente chegou lá, porque era o final da extração. E eles terminaram o trabalho antes da gente, mas tínhamos que continuar documentando o que fizeram naquela área”, conta.
Para apoiá-los na finalização da coleta de dados em campo, Barreto lembra que o assistente foi à cidade contratar um ajudante, mas o novo contratado começou a ficar doente e os pesquisadores tiveram que adiantar a volta. “Quando a gente chegou na cidade, levou ele para fazer exame, estava com malária. Tinha dessas coisas”, relata.
Além, claro, de vários episódios de carros atolados, como o Fusca branco que o Imazon possuía na época para as viagens de campo. A combinação de estradas de chão onde transitavam pesados caminhões com as chuvas da Amazônia fazia do caminho às áreas de extração de madeira uma luta similar a de Davi e Golias para o pequeno modelo da Volkswagen.
Do diagnóstico à demonstração de soluções: o projeto piloto de manejo florestal
A desafiadora documentação da exploração madeireira em campo foi essencial para que os pesquisadores pudessem conhecer a real dimensão dos danos causados na floresta pela extração predatória, informal e majoritariamente ilegal. Com isso, ficou evidente que era necessário demonstrar um modelo sustentável para a atividade.
“Existia uma discussão sobre manejo florestal, mas era teórica”, lembra Veríssimo. A proposta de testar a teoria na prática foi apresentada por ele e por Barreto a Uhl na chamada “Casa Verde”, uma residência pintada dessa cor em uma fazenda de Paragominas que era usada como base dos pesquisadores no município. À época, eles passavam o dia em campo e voltavam à noite ao local, onde discutiam ideias de novos projetos.
Veríssimo conta que Uhl descartava a maioria das propostas, mas uma delas despertou o faro científico do mentor. “E se a gente fizer um projeto aqui em Paragominas, que é o coração da extração de madeira no mundo tropical, mostrando que é possível tirar madeira de maneira manejada, com menos danos? Isso talvez mude a visão dos madeireiros”, propôs a dupla.
“Além do efeito demonstrativo, a pesquisa deveria documentar os custos e benefícios financeiros para o convencimento dos madeireiros”, destaca Barreto. Uhl passou três dias discutindo a ideia com os jovens pesquisadores e a transformou em um projeto, que foi submetido para financiadores. A United States Agency for International Development (USAID) e a World Wide Fund for Nature (WWF) aceitaram apoiar a proposta.
Para ser convincente, a iniciativa deveria ocorrer em uma área de alguém do setor. Por isso, Barreto lembra que a equipe conversou com o Sindicato dos Madeireiros de Paragominas a procura de empresários que poderiam aceitar a realização do projeto em suas terras. “Depois de várias conversas e visitas de campo, conseguimos uma área de 250 hectares a cerca de 30 quilômetros da zona urbana do município, que pertencia a Pércio e Tales Lima, cuja família já apoiava várias pesquisas agropecuárias na região”, conta o pesquisador.
Após a escolha da área, o passo seguinte foi o planejamento. Para desenvolver o plano, Barreto, que coordenou o projeto, conduziu uma ampla revisão da literatura e entrevistou pesquisadores locais da Embrapa sobre manejo florestal.
Depois, em 1992, o Imazon começou a montar e a treinar a equipe que trabalharia no projeto. Era necessário contar com operadores de motosserra, tratoristas, ajudantes de tratoristas, operadores de pá carregadeira e equipes de inventário. “Não existia nenhuma equipe na Amazônia treinada para fazer manejo. Todo mundo era treinado para derrubar a floresta”, comenta Veríssimo.
No total, foram contratadas cerca de 40 pessoas, que passaram por um treinamento sob o comando de Johan Zweede, ex-diretor florestal do Projeto Jari. “Era o cara que mais conhecia de operação florestal na Amazônia, pois teve mais de 3.000 pessoas trabalhando com ele no Projeto Jari”, recorda o pesquisador. Além do time operacional, o Imazon expandiu a equipe científica com pesquisadores em ecologia como Jeffrey Gerwing, Jennifer S. Johns e Andrew Holdsworth.
Já os tratores necessários para o trabalho, que eram do modelo “skidder”, foram importados dos Estados Unidos, emprestados por dois anos pela Caterpillar. “Era uma máquina que à época não existia no Brasil. E quando esses equipamentos chegaram em Paragominas, numa carreta grande, porque eram enormes, os madeireiros ficaram realmente impressionados. Era algo cinematográfico”, conta Veríssimo.
“Você não vai trabalhar com atividade madeireira, é com pesquisa”, disse Uhl
Foi neste ano de treinamento de equipe, em 1992, que o pesquisador Paulo Amaral ingressou no Imazon, onde hoje coordena o Programa de Restauração de Paisagens. Engenheiro Agrônomo formado em 1990 pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), ele conheceu Uhl quando cursava uma especialização em Culturas Familiares e Desenvolvimento Agrário no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde o estadunidense deu uma aula sobre Biologia da Conservação. Na mesma semana, o Imazon realizou uma seleção para contratar pessoas desse curso, e Uhl chamou Amaral para um conversa.
“Eu já tinha aceitado uma vaga para ser professor da universidade no campo que estava abrindo em Marabá, mas fui. Contei da minha formação relacionada à agriculura familiar e que não teria interesse em trabalhar com a atividade madeireira, que era completamente ilegal, degradadora. Eu não queria me relacionar com isso, eu era muito ligado ao movimento estudantil, ao movimento social”, lembra Amaral. Mas Uhl disse uma frase que sacudiu o jovem agrônomo: “Você não vai trabalhar com atividade madeireira, é com pesquisa”, e o convidou a ir de Belém a Paragominas para conhecer os estudos.
Na viagem de ônibus que durou cinco horas, o mentor contou sobre o potencial de conservação da floresta que as pesquisas tinham, fato constatado em campo por Amaral durante três dias acompanhando o Imazon. Isso fez o jovem desistir da vaga em Marabá e passar a integrar a equipe do instituto, onde começou a atuar no projeto piloto de manejo florestal.
Operação dividiu equipes para comparar extração predatória com a manejada
Após o ano de contratação e treinamento dos integrantes, a iniciativa entrou em operação na floresta de 1993 a 1994. Os trabalhadores foram divididos em duas equipes, uma para testar o manejo sustentável e outra para fazer a extração tradicional e predatória, para que os pesquisadores pudessem documentar as diferenças. Tempo de trabalho, custos, danos na floresta, eficiência da extração, lucratividade e regeneração da vegetação, tudo foi medido.
Nesse período, Amaral relata que era comum pesquisadores e trabalhadores jogarem futebol nos acampamentos no final da tarde, depois de um dia de extração madeireira. Um dia, após uma partida, quando eles já estavam deitados no acampamento, por volta das 23h, um esturro muito próximo de onça deixou todos em alerta. “A partir daí, ninguém dormiu mais, o susto foi muito grande. Quando clareou, vimos pegadas bem na beira do barraco e decidimos ir embora, porque começaram a dizer que a onça iria voltar”, conta com humor.
Nesses dois anos de operação, Barreto também lembra que a dificuldade de campo ia muito além da pesquisa, pois era necessário gerenciar toda a equipe de extração. “No final, saíram vários trabalhos mostrando que dava para reduzir significativamente o impacto ambiental e que isso melhorava a eficiência, reduzia os riscos de acidentes e aumentava a lucratividade”, explica Barreto, que coordenou os trabalhos.
Além disso, no final da operação, os pesquisadores realizam um dia de campo para que os empresários da região pudessem conhecer na prática as técnicas aplicadas e os resultados alcançados. “Reunimos cerca de 60 pessoas”, relembra Amaral.
Publicações científicas e premiações
O primeiro estudo originado do projeto piloto foi “Logging damage during planned and unplanned logging operations in the eastern Amazon“, de 1996. O trabalho concluiu que o corte planejado reduziu os danos florestais em até um terço, aumentando o potencial para a exploração sustentável.
Já a pesquisa “Fire in Amazonian Selectively Logged Rain Forest and the Potential for Fire Reduction“, de 1997, tratou de uma preocupação fundamental: o aumento do risco de incêndio nas florestas exploradas. Isso porque estudos anteriores indicavam que queimadas em áreas degradadas causavam alta mortalidade de árvores. A análise mostrou que as técnicas de manejo de baixo impacto e a regeneração do fechamento gradual das clareiras reduzem a suscetibilidade ao fogo com o tempo, tornando a exploração mais segura e sustentável.
Outro estudo, “Vine management for reduced-impact logging in eastern Amazonia“, de 1997, detalhou o manejo dos cipós, já que o manejo envolvia cortá-los para evitar que a queda de uma árvore puxasse outras entrelaçadas. A derrubada de árvores com muitas conexões de cipós resultou em clareiras duas vezes maiores do que as criadas na derrubada sem cipós.
Também é destaque a pesquisa “Costs and benefits of forest management for timber production in eastern Amazonia“, de 1998, que abordou os custos e benefícios do manejo e integrou vários resultados do projeto piloto. Os pesquisadores estimaram que a extração de madeira manejada resultou em uma lucratividade de 38 a 45% maior do que a tradicional. Porém, o estudo alertou que a adoção do manejo seria limitada pela escassez de assistência técnica, impunidade de crimes florestais e disputas de posse da terra. E que seria necessária uma política regional que abordasse as questões econômicas e ecológicas. Essa conclusão estimulou trabalhos posteriores para a criação de políticas de manejo florestal baseadas em concessões de uso e treinamento.
O projeto piloto também incluiu o monitoramento de longo prazo das áreas exploradas. O estudo inicial desse monitoramento foi a tese de doutorado do então pesquisador do Imazon Edson Vidal na Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, chamada “Dinâmica de florestas manejadas e sob exploração convencional na Amazônia Oriental“, de 2004. Vidal depois se tornou professor de manejo florestal na USP em Piracicaba, onde organiza aulas de campo na Amazônia e continua monitorando a área e publicando novos estudos.
Além disso, em 1997, a iniciativa de manejo florestal do Imazon recebeu o Prêmio Henry Ford de Conservação Ambiental, na categoria de Ciência e Formação de Recursos Humanos. Anos depois, em 2001, outro prêmio reconheceu a atuação do instituto em relação ao manejo florestal, dado pelo Programa de Meio Ambiente da USAID. Com isso, segundo Veríssimo, “o manejo florestal deixa de ser uma discussão teórica, uma possibilidade, e passa a ser uma realidade”. Depois de vários estudos, o desafio era ainda maior: como dar escala para essa solução sustentável?
Iniciativas para disseminar o manejo florestal
Ao demonstrar que, além de reduzir os danos na floresta, o manejo florestal sustentável também aumentava a eficiência e a lucratividade da exploração madeireira, o Imazon passou a ser altamente demandado para ensinar a prática. “Apenas em Paragominas, eram 240 serrarias. Em toda a Amazônia, tinham mais de 3.000. E uma parte delas queria adotar o manejo”, lembra Veríssimo.
Foi aí que os pesquisadores se viram diante de dois caminhos. O primeiro seria iniciar uma unidade de treinamento, que talvez virasse maior do que o próprio Imazon. Já o segundo seria criar outra instituição para esse papel. Quem topou capitanear a segunda opção foi Zweede, que fundou o Instituto Floresta Tropical (IFT), em 1994. “Essa escolha confirmou o Imazon como um centro de inovação. Testa ideias e, quando elas são escaláveis, deixa que uma outra organização faça esse papel”, comenta Veríssimo.
E justamente por escolher focar na ciência, o Imazon publicou, em 1998, o primeiro guia que ensinava passo a passo como aplicar o manejo florestal na região amazônica, chamado de “Floresta para Sempre: Um Manual para a Produção de Madeira na Amazônia“. Publicação que até hoje é uma referência acadêmica sobre o tema.
“Com a colaboração de madeireiros, foram testadas técnicas existentes, determinando as mais adequadas à realidade amazônica. Esse é o maior mérito do manual. Em vez de procurar técnicas complexas, caras e de alta tecnologia, propõe um modelo composto de medidas já comprovadas e práticas de baixo custo adequadas à realidade ambiental, econômica e social da região. A adoção desse modelo em larga escala pode causar uma revolução no uso dos recursos florestais na Amazônia, contribuindo para o desenvolvimento sustentado da região”, escreveu Garo Batmanian, à época diretor executivo do WWF, no prefácio da obra. O manual também foi traduzido para o espanhol e utilizado como base para elaboração de políticas públicas no Peru e na Bolívia.
A soma do projeto piloto, das publicações científicas e do manual fizeram o Imazon influenciar a criação de políticas públicas para o setor, como regras sobre o manejo florestal, a certificação e a concessão de áreas públicas para a atividade. Entre 1995 e 1999, o Imazon publicou mais de 50 estudos sobre exploração madeireira na Amazônia, com diferentes focos. Entre eles estavam os resultados do projeto piloto, as técnicas para o manejo florestal na Amazônia, a análise de políticas públicas, a documentação de espécies ameaçadas, a relação da prática com os incêndios florestais e até o uso do sensoriamento remoto para monitoramento da atividade.
Polos madeireiros, preço da madeira e monitoramento por satélites
Nas décadas de 2000 e 2010, o Imazon seguiu atuando no tema do manejo florestal, incluindo também o mapeamento dos polos madeireiros, o levantamento dos preços da madeira e a identificação de áreas para concessão florestal.
Três dos livros publicados nesse período podem ser considerados destaque. O primeiro foi “Pólos Madeireiros do Estado do Pará“, de 2002, que caracterizava o setor madeireiro no estado, à época responsável por 40% da produção de madeira da Amazônia. O segundo foi “Manejo Florestal Empresarial na Amazônia Brasileira: Restrições e Oportunidades“, de 2006, que concluiu que os principais entraves para o avanço da prática sustentável eram problemas fundiários, escassez de informações e de treinamento, ineficiência da fiscalização e falta de incentivos. Já o terceiro foi “A atividade madeireira na Amazônia brasileira: produção, receita e mercados“, de 2010, publicado em parceria com o Serviço Florestal Brasileiro e definido como “o mais amplo levantamento de campo sobre o setor” na região.
Além disso, entre 2005 e 2009, o Imazon desenvolveu e testou o Sistema de Apoio ao Manejo Florestal (Samflor), que visava avaliar e administrar as práticas de manejo em pequenos e médios empreendimentos florestais na Amazônia. No ano seguinte, em 2010, o instituto publicou o “Guia SAMFLOR“, que ensinava como usar o sistema.
Atualmente, o tema da extração de madeira concentra-se principalmente na área de sensoriamento remoto do Imazon. De 2008 até hoje, o instituto divulga mensalmente a degradação florestal causada pela exploração madeireira e pelo fogo por meio dos boletins do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD). Além disso, desde 2008, o Imazon também realiza anualmente o mapeamento das áreas com extração de madeira e a avaliação de sua legalidade no Pará, por meio do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex).
Para expandir esse trabalho, em 2021, o Imazon se uniu com outras três instituições de pesquisa ambiental (ICV, Idesam e Imaflora) e realizou o primeiro mapeamento da exploração madeireira em toda a Amazônia, com a avaliação da legalidade nos estados com planos de manejo públicos. Chamada de “Rede Simex”, as quatro organizações têm publicado anualmente esses dados, com um estudo para a Amazônia e outros para cada estado. O grupo também foi responsável pela pesquisa “A Evolução do Setor Madeireiro na Amazônia entre 1980 a 2020 e as Oportunidades para seu Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável na Próxima Década“, publicada em 2022.
Manejo florestal comunitário
Depois de participar da demonstração em campo do manejo florestal, Amaral, que desde sua formação queria trabalhar com agricultura familiar e povos e comunidades tradicionais, passou a direcionar seus esforços de pesquisa para adequar essa prática sustentável à realidade e à escala dessas populações. “Diferente da atividade madeireira tradicional, que era migratória, as comunidades iriam ficar ali. Então, a abordagem era de que a floresta pode ser usada de forma sustentável, para que possa gerar benefícios continuamente”, lembra o pesquisador.
Em 1998, Amaral coordenou a primeira oficina sobre manejo florestal comunitário da Amazônia, que promoveu a troca de experiências entre 12 iniciativas mapeadas. Dois anos depois, em 2000, foi um dos autores da pesquisa “Manejo Florestal Comunitário na Amazônia Brasileira: Situação Atual, Desafios e Perspectivas“, que identificou 14 projetos, de agricultores familiares, indígenas, extrativistas e ribeirinhos. O estudo concluiu que a prática comunitária tinha potencial para evitar a formação de latifúndios, valorizar o preço dos recursos florestais e diminuir a pobreza e a devastação.
A geração de renda para as comunidades e o avanço de políticas públicas específicas fizeram a atividade se expandir rapidamente pela Amazônia. Conforme o estudo “Manejo Florestal Comunitário: processos e aprendizagens na Amazônia brasileira e na América Latina“, de 2005, os menos de 20 projetos mapeados até 2000 passaram para mais de 300 na metade da década. Por isso, o estudo avançou em discutir financiamento, assistência técnica e mercado para a atividade, incluindo estratégias de comercialização coletiva.
Além disso, em 2007, inspirados no sucesso do manual de manejo florestal “Floresta para Sempre”, os pesquisadores do Imazon decidiram criar uma publicação com o passo a passo para orientar comunidades a implantarem a prática sustentável. Chamado de “Guia para o Manejo Florestal Comunitário“, o manual traz inclusive modelos de atas e estatutos para criação de associações e cooperativas, bem como para a realização de assembleias, o que auxilia as comunidades nas questões burocráticas necessárias para implantar seus projetos de manejo.
O livro fez tanto sucesso que chegou a ser reimpresso pelo Serviço Florestal Brasileiro (FSC), no mesmo ano. Além disso, o manual também contribuiu para maior expansão da atividade. Segundo a publicação do Imazon “Manejo florestal comunitário na Amazônia brasileira: avanços e perspectivas para a conservação florestal“, de 2007, a região possuía à época 1.500 projetos de povos e comunidades tradicionais.
Esse crescimento da atividade, que passou a ser uma fonte de renda sustentável para as comunidades, fez com que o governo criasse, em 2009, o Programa Federal de Manejo Florestal Comunitário e Familiar (PMCF), que previa a elaboração e publicação de um Plano Anual de Manejo Florestal Comunitário e Familiar. E para definir ações prioritárias para esse plano, o Imazon contribuiu com o estudo “Iniciativas de Manejo Florestal Comunitário e Familiar na Amazônia Brasileira 2009/2010“, de 2011, que sistematizou as iniciativas voltadas à produção de madeira e à produção de produtos florestais não madeireiros (PFNM) de sete espécies — açaí, andiroba, babaçu, buriti, castanha-do-brasil, copaíba e seringueira (látex).
Produtos florestais não madeireiros
Aliás, foi a partir dos estudos de manejo florestal comunitário para produção de madeira que o Imazon ingressou na pesquisa de outros produtos florestais. O ponto de partida foi a publicação “Frutíferas e Plantas Úteis na Vida Amazônica“, de 2005, que integrou saberes científicos e tradicionais sobre ecologia, manejo e usos de 21 espécies. Chamado à época por Marina Silva de “extraordinário poema à Amazônia”, a obra é referência até hoje na temática.
Porém, embora a publicação mostrasse o valor ecológico, cultural, medicinal e nutricional dessa biodiversidade amazônica, ainda faltava o valor econômico. E foi para preencher essa lacuna que o Imazon iniciou um projeto que durou uma década, de 2008 a 2018: a divulgação do preço dos produtos florestais não madeireiros. A iniciativa consistia em levantar o valor de 24 deles nas feiras de Belém e de municípios estratégicos e divulgá-los semanalmente tanto no site do Imazon quanto na rádio.
O objetivo era que as comunidades soubessem o preço de seus produtos e tivessem mais condições de negociar com atravessadores ou compradores diretos. A lista continha: açaí, araçá, buriti, cacau, cajarana, castanha-do-Pará com casca, castanha-do-Pará sem casca, jatobá, jenipapo, látex, mel, óleo de andiroba, óleo de buriti, óleo de castanha-do-Pará, ouriço de castanha-do-Pará, óleo de copaíba, óleo de patauá, óleo de pequi, óleo de pracaxi, pupunha, sapotilha, sucuúba, tucumã e vinho de açaí.
As divulgações radiofônicas eram feitas todos os domingos no programa Clube do Campo, que era transmitido ao vivo das 7h às 9h na Rádio Clube do Pará. E com a participaçã de Amaral, seja presencialmente na rádio ou por telefone. “Por causa disso, começamos a receber ligações de vários lugares da Amazônia e até do mundo. Uma vez ligou uma pessoa do Japão, que comercializava castanha-do-Pará e queria levar açaí. Teve um impacto muito interessante, porque chegamos em comunidades muito distantes”, lembra o pesquisador. Por causa do programa, também era comum ele ter a voz reconhecida quando visitava comunidades interioranas do estado.
Esse projeto contribuiu com o cumprimento da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM) para Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM) e teve seus dez anos comemorados por meio do livro “Preços de Produtos da Floresta: uma década de pesquisa e divulgação“, publicado em 2019.
Outra publicação de destaque do Imazon nessa temática foi “Boas Práticas para Manejo Florestal e Agroindustrial - Produtos Florestais Não Madeireiros: Açaí, Andiroba, Babaçu, Castanha-do-Brasil, Copaíba e Unha-de-gato“, usado até hoje em formações de campo do instituto. Em 2023, por exemplo, o capítulo sobre a copaíba desse livro foi a base teórica para um curso de manejo sustentável da espécie fornecido a ribeirinhos que moram na Floresta Estadual (Flota) de Faro, no norte do Pará.
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